Diários Noturnos

Diários Noturnos

23 de abril de 2015

Quando as vogais se mudam de casa

Entre o luxo e o lixo, duas vogais se mudam de suas casas. Em São Paulo, travestir-se de pano de chão é apenas uma questão de se esquecer para onde vai e por qual motivo veio.
Estou com a sensação de que tenho passado os dias amortecida, meio esvaziada. Tudo que me prometo, não cumpro. Chego atrasada no trabalho, não ponho as roupas para lavar, não arrumo o meu quarto, não envio currículo para sair desse estado de copo vazio que está cheio de ar, não vou à consulta marcada há um mês, não vejo os amigos de longa data, não percebo o amanhã chegar e ele está aqui, em presença, depois de ontens irracionais e contemplativos passados amarrotadamente. Parece-me que estou fora do mundo. Saí de cena. De todas: do facebook, das aulas da universidade, das salas de cinema, da minha casa. Ontem, quando chegou à pizza, eu coloquei a minha bolsa no ombro e esperei Tino, amigo que veio me visitar em casa, pegar a chave. Mas sou eu quem mora ali e: cadê minha chave?

Deslocada,
descompassada.
Fora de ritmo.
Nenhuma trilha sonora alcança
a distância que estou de tudo.
Eu tirei as cores da cidade. 
Não me sinto deprimida, me sinto opaca. Se alguém gritasse sobre um vulcão que resolveu entrar em erupção na esquina mais próxima, ficaria plantada onde quer que eu estivesse. Eu só sirvo para ser poema, não sirvo para ser jornalista nem garçonete, nem amiga, nem namorada, nem irmã, nem filha. Talvez para ser mãe, além de poema. Eu e os meus mil cuidados. Choro quieta pensando no que está por vir.
Andando pelo centro por volta da metade desse dia nublado, entre as danças dos que guardam a chuva, fiz a frase: “Hoje eu vou cair em mim”. Repeti algumas vezes para decorar no corpo. Eu tenho mil planos que não saem da planície das listas que faço sempre que encontro um papel.
Releio repetidas vezes o que escrevi até aqui para ver se alguma palavra pesca a minha inspiração. Não estou sabendo falar de nada mais afora descrições de como ando passando os dias. Podia parar de escrever porque não tenho assunto. Contudo, tenho a impressão de que a escrita pode me contar sobre algo que não esteja no terreno que habito, de que pela escrita eu possa atravessar daqui para outro lugar. Acredito que escrever tenha esse poder que física nenhuma traz para a experiência. Ou escrever é físico?
Quem escreve vive duplicadamente. Por exemplo, eu estou sentada como hostess em um restaurante, apoiada sobre uma mesa alta de ferro reluzente. A cadeira é feita de madeira maciça; quando sentada nela, a altura dos meus peitos fica na direção da mesa. O meu trabalho é receber os clientes que chegam, acompanhando-os até o piso do restaurante, e servir os que escolhem se sentar na área externa, apelidada “café”. A mesa alta de ferro está posicionada na porta de entrada do restaurante e eu estou atrás dela. Faz pelo menos meia hora que ninguém entra e não há alma viva alguma no café. Enquanto nada acontece, estou a escrever os meus pensamentos. 
Se eu não estivesse registrando as ideias que agora me ocupam, amenizando o tédio contemplativo, o dia passaria de uma vez só e seria mais fácil esquecer que ele existiu. Todavia, estou soletrando o avanço das horas passando por mim. Isso que faço é comometaviver metalinguisticamente. E sabe o que é pior? Acho que já escrevi conteúdo semelhante a esse que estou escrevendo. Se eu quiser, faço desse relato de diário um conto literário. É só eu me mudar de casa: da primeira para a segunda pessoa do singular. Do lixo que é perder horas por estar perdida ao luxo de ser personagem eternizada em formato literário.

Quando a primeira pessoa vira uma segunda do singular


Veio à Alberta a ideia, de repente, de que entre o lixo e o luxo ocorre apenas a mudança de duas vogais de suas casas. Depois de tal constatação, ela pensou que São Paulo a fez se travestir de pano de chão quando passou a se esquecer, aos poucos, para onde estivera indo e por qual motivo viera parar nessa cidade. Alberta estava com a sensação de que vinha passando os dias inteiramente amortecida, meio esvaziada. Tudo o que prometia a si mesma, não cumpria. 
Estava chegando atrasada todos os dias no trabalho, não andava colocando suas roupas para lavar nem arrumando seu quarto, cada dia inventava uma desculpa para deixar para o amanhã impossível o envio de seu currículo para novas oportunidades de ser-estar (de ser star), acumulando o sentimento de que o copo vazio está cheio de ar. Alberta, hoje cedo, não foi à sessão que havia sido marcada há um mês com a psiquiatra e já faz bem dois meses que não vê nem conversa com seus amigos de longa data. Ela não está percebendo que o hoje que está vivendo é o amanhã que já chegou. Está colecionando ontens irracionais e contemplativos, que passam amarrotadamente pelos calendários. 
Alberta está fora do mundo, saiu de todas as cenas: do facebook, das aulas na PUC, das salas de cinema e, quando está em casa, é como se não estivesse.
Ontem, quando chegou a pizza, pós-roda de maconha entre conhecidos e desconhecidos, ela colocou a bolsa no ombro e esperou Bruno, seu amigo que viera lhe fazer uma visita, pegar a chave. Mas ela é quem está morando ali e, obviamente, é quem tinha que abrir a porta.

Descompassadamente fora do ritmo,
rodopiando em volta de si mesma.
Tão distanciada de sua ventura
que não se escuta nem se lembra
de que um dia gostava de ouvir
Los Hermanos.
Alberta tingiu de sépia sem contraste
as cores da cidade, como
se a vida que chega aos olhos
pudesse ser um instagram.

Ela não se sentia deprimida, sentia-se opaca. Se uma cratera se abrisse embaixo de seus pés, andando rua a fora, apenas se lamentaria de não ter asas para voar e fugir de uma morte acidental. 
Alberta às vezes sente que só serve para ser um poema. Não está para ser psicóloga nem garçonete, nem namorada, nem amiga, nem irmã, nem filha. Ela minimamente confia na ideia de que um dia servirá para ser mãe, com sua vocação à sensibilidade e suas manias de cuidado à moda antiga. Ao pensar nisso, em ser mãe, toda ela se lacrimeja de emoção, fantasiando o cenário do futuro que pode chegar a qualquer dia.
Quando ela estava a caminho do trabalho, já com dívidas contadas pelos ponteiros do relógio, acelerando os passos pelo centro da cidade por volta da metade do dia nublado, equilibrando-se com o guarda-chuva numa mão, a bolsa na outra, escapou-lhe a frase em voz alta: “Hoje eu vou cair em mim”. Não entendeu o que isso poderia significar, mas repetiu para si mesma a frase, como se fosse um mantra.
Ela tinha mil planos que acabavam não saindo das inúmeras listas que escrevia à mão. Alberta tinha mania de escrever porque se preocupava muito com o alcance de cada palavra. Hoje, no restaurante, quando o movimento de clientes ficou fraco ou nulo, quando passou a não ventar sequer um fio de seu cabelo, Alberta se acomodou na mesa alta de ferro reluzente para escrever. Não tinha muito o que dizer, todavia, ficou fotografando com palavras a sua existência no espaço-tempo. 

31 de março de 2015

Loá, para a posteridade

Loá saiu do show das irmãs gêmeas, Taxi, Taxi!, com o sentimento de que as duas garotas carregavam um quarto escuro nos olhos. Ela não chegou a encará-las face a face. Não foi preciso. Tudo o que reparou nelas condenava que, sim, as moças eram trancadas numa escuridão própria.
Entrou pausadamente na sala de sua casa. Encostou a porta da entrada atrás de si como se estivesse tocando um piano, retirou com cautela a chave do buraco da fechadura e a pousou, logo em seguida, sobre a escrivaninha que ficava à direita para quem entra no apartamento. Os estalos desses mínimos movimentos eram barulhos silenciosos e disrítmicos, revelavam a inquieta paciência de seus gestos, quase robótica. Agia, em sua solidão, com a qualidade de quem estivesse sendo filmada para a posteridade. Como se não pudesse mais suportar a delicadeza solitária de fluir o instante após adentrar o recinto que ela mesma cuidava - por ter unicamente essa opção, não havia mais ninguém morando ali -, sentou-se na cadeirinha que ficava na varanda, ao lado do vaso de manjericão meio sem vida. O sol não alcançava os ângulos mais baixos de cada canto da varanda. Depois de um espaço de tempo, a planta morreu.
Às vezes Loá confundia o vento que escutava mais alto durante a noite com um assovio de gás vazando. Então, levava todo o seu corpo para a cozinha para verificar as bocas do fogão. Chegando lá se lembrava de que não havia posto nada para ferver ou cozinhar. Ela tinha pavor de morrer por descuido. A ideia de se aniquilar era uma máxima na gaveta mais difícil de abrir em seu cérebro. Sabia que ganhava a vida disfarçando de modo torto esse pensamento que vinha na frequência de toquinhos de martelo.
Loá achava que tinha a missão de desdizer as coerências inventadas pelo mundo ou por ela própria, acreditando que seus dentes enfileirados eram uma espécie de fuzil contra as verdades sustentadas como absolutas, e, por isso, falava, falava, abria a boca para emitir, quando podia, a sua opinião sobre as coisas. Todavia, embora procurasse um espaço para contar acerca de suas análises de cineasta sobre as composições de existência das quais tinha acesso, nem sempre conseguia se expressar. Loá andava nutrindo algum ódio pelas palavras. Fazia tempo que não consultava dicionários e até fantasiava que havia uma minhoca esmagada entre as páginas de seu dicionário preferido na poeira da estante do rack.
Além de falar, Loá escrevia. Em uma noite insone, olhou-se no espelho e desenhou com a força da imaginação a forma de seu corpo com verbetes enfileirados, como se ela mesma fosse inteira um dicionário. Pensou que falar ou escrever era um jeito de se despir. Gostava da crueza da nudez, pois, a nudez podia ser sempre duas coisas: inocência desprotegida e perigo iminente. Uma vez acariciou a sua coxa esquerda e se lembrou que dentro dela havia o fêmur. Teve a sensação rígida de ser ossos articulados por tendões. Ela não sabia dizer há quanto tempo estava correndo atrás de alguma coisa que lhe escapava toda santa e diabólica vez. Doíam-lhe as pernas e principalmente os tornozelos, Loá ia se dilacerando em sensibilidade pelos caminhos percorridos. Ela tinha a intuitiva sabedoria de que não se permitia fincar. Embora isto lhe fosse de fácil compreensão, não dava a mínima para entender a causa de não se permitir parar de correr. "Tanto faz saber o motivo disso", pensou, "a companhia da noite é uma de minhas poucas certezas que sei que durará por toda a vida".
Inspirou um cigarro de modo fundo, cavando toda a terra dos pulmões. Ao devolver o ar à atmosfera, disse em voz alta: "Tenaz". Quis escrever essa palavra. Procurando em suas miudezas e memórias o que substancialmente tal adjetivo significava a ela, completou, esbaforida: "tenacidade é um troço leitoso que me entope o estômago". Alcançou seu diário e, no momento de escrever, quase o fez com o cigarro. Refletiu que tal ato falho tinha uma raiz lógica: "a caneta também é cilíndrica". 
Na madrugada, tinha o hábito de contar as janelas acesas dos prédios. Por que diabos ela não se contentava com a noite, uma de suas poucas certezas? A noite nunca a deixaria, depois do dia, lá estaria ela. Para ela.
"Se eu chego em casa e não tiro os sapatos é pelo motivo de não me sentir em território próprio?", se questionou. O lugar dela não era aquele, por isso corria. Qual era e onde ficava esse lugar? A pergunta lhe veio enquanto degustava o grand finale do uísque. O black Johnnie. A cada vez que levava o trago do uísque até à boca, pingava uma gota gelada em sua saia. Usava aquela saia para seduzir, era viciada em atrair para si a atenção que suspeitava ter faltado a ela desde a infância. Nunca planejava o que fazer para lidar com os objetos conquistados e acabava por se sentir criando filhos órfãos; deixava-os todos, no fim. Em pleno sangue, fervido na colher de aço da vida, Loá carregava a impressão de que ela era um pouco desumana. Não tinha receio de enlouquecer, mas sentia sua liberdade como um purgatório - o lugar onde se sofre. Colecionava desconhecidos que tinham por ela amor e depois era tomada por um vazio de queimar saliva. Tinha regularmente a sensação ansiosa de boca seca e, para aplacar o deserto de si mesma, bebia. À noite. Sozinha.
Da varanda cheia de madrugada, ouviu um grito feminino vindo da rua de trás. A voz a estuprou. Se até, ou inclusive, o belo a violava, o que diria de um grito no silêncio dos tantos que dormem. E ela ali, acordada, comendo cigarros. 
Fazia tempo que não ia ao mercado e andava esquecendo há pelo menos três semanas das quintas de feira. A geladeira refletia a sua cara de sete buracos descobertos e escancarados para o nada e para a fome de se experimentar completamente fincada como uma árvore. De repente, Loá se sentiu enjoada de si mesma. Cambaleou até o quarto escuro e dormiu de rímel, lápis azul nas pálpebras e roupa de rotina no corpo. Apenas tivera forças para tirar os sapatos.



NOTA DA AUTORA


Não se soube em que pé de humor Loá acordou nem mesmo tem-se notícia de por onde anda correndo e com que pernas. Esse conto é a captura cinematográfica de uma noite da menina de 21 anos que não dava a mínima e se dava toda. 
Embora a autora seja o olhar que a filmou, foi Loá quem escreveu de próprio punho, em seu diário, o pedaço de uma de suas noites para a posteridade. Essas páginas foram encontradas no meio de um caderno de pautas musicais.




20 de março de 2015

A muda do jardim inflamável

Existem dias
que são noites.

À flor do fogo,
há uma escuridão
com a força
de um incêndio.

Resolvo a cegueira
para 
ver melhor
o vermelho
do núcleo
sem centro.

O que importa
na vida
é o que
nos escapa
do fim
dela mesma.

Sejamos
antes
que mortos
e apesar
de vivos.

A extremidade
é um
branco
mais fundo
que o oceano:

Tão real
que não sobra
fagulha alguma
de existência.

A hipérbole radical
que tem ombros
para todo peso
semântico-substancial
é o amor.

O que fica por dizer
aduba o amanhã
depois de uma
noite inteira
florescendo
a ferro e fogo.

Tem dias
e noites
que as palavras
me faltam?
se ausentam?
morrem?

Não durmo
nem acordo,
discordo
de tudo,
muda inteira.

A muda
do
jardim
inflamável.




24 de fevereiro de 2015

LINHA DO TEMPO DA QUEDA DE ALICE NO PAÍS DO TÉDIO

Para Amy, Hendrix, Janis, Jim Morrison e Kurt Cobain


Um
Dois
Três

Quatro
Cinco
Seis

Um
modo
de domesticar
o Nada

É contar
a queda
de Alice
no país
do Tédio.

Sete
Oito
Nove

Dez
Onze
Doze

Um
ano
inteiro
se passa
tediosamente:
Parabéns
 pelo seu desaniversário!

Treze
Drogada
Substituída

Dezesseis
Dezessete
Dezoito

Entrou
na faculdade
e aprendeu
a desaprender
o que até aqui
carregou como bagagem.

Dezenove
Vinte
Vint'e um

Mil e um crimes
passionais
levaram
sua culpa
aos tribunais.

Vint'e dois
Vint'e três
Vint'e quatro

Acha que gosta 
de menina
e de menino.
Foi carimbada
de bissexual.

Vint'e cinco
Vint'e seis
Vint'e sete
!

Entrou para
o rock
e rolou
até a morte
internacional.




13 de janeiro de 2015

Dois mil e quinze vírgula

2015, 
você tem 
um cheiro engraçado. 
Cheiro de sapato novo 
de borracha.

Andando por janeiro, 
vai passando pela calçada 
da primeira rua do calendário,
apagando as vírgulas do passado.

,
,
,

Meia nove



Um vaso
é um
abraço
no vazio.

Mas há 
o vazio
no vaso.

A boca
do vaso
é o ânus
do vazio.

9 de janeiro de 2015

Página arrancada do diário

14 de Dezembro de 2013.


Acordei com você. Data estranha. Passou um ano quase inteiro e parece que fiquei a me encarar no espelho enquanto o reflexo da vida cinematograficamente mudava o cenário que preenchia o ar por detrás das minhas costas. Uma solidão ensimesmada que acordava apressada todas as manhãs, maquiava-se belamente, recebia olhares - intocáveis -, estudava e trabalhava de se reinventar em papéis tantos - e tortos - onde o sorriso que esmaga as minhas bochechas, salientando-as, era o único lugar-comum do travestido cotidiano. Nunca deixo de sorrir, pois, já aprendi isto profundamente, sou esperançada e me espanto com esta vida grande e impossível. 

Sempre que me despeço de você cai uma lágrima do meu sorriso; as minhas íris caem na ansiedade negra das pupilas. Olhos que se tornam intocáveis e distantes. Não são intocáveis os outros olhos. Eu que, de tão pura, me afasto dos olhares. 

Ontem, quando andávamos intranquilos pela noite dilatada, você me disse que na época medieval quem frequentava as ruas durante a alta noite eram somente os santos ou os loucos. E ontem éramos nós, loucos e santos, num mundo que pelo exagero globalizado se fez medieval. Andávamos solitários, pisando medrosamente nas pupilas do mistério noturno. Toda pureza santificada é uma espécie de loucura, não é? De repente o espelho vira o cinema que antes rodava no ar por detrás das minhas costas. Ponho os olhos a fitar o ângulo mais alto que alcanço com a dimensão calculadamente delineada por um Deus santo-insano de meu corpo e toco o impossível que sou eu.

Acordo cansada quando durmo com você. Confusa que fico se estou já desperta ou se ainda sonho. Cante para mim, por favor, Strawberry fields forever? Venero religiosamente, como uma louca, a tua voz aveludada. Estou na realidade, contudo, cante cante cante até que eu caia nas profundezas do umbigo inconsciente. Living is easy with eyes closed.

I'll send all my loving to you,

R.

Fidelidade entre as pernas

Desde o meu primeiro inverno,
a madrugada é o espírito mais fiel
de que tenho notícia.

Vestindo vermelho ou negro,
tem, inacreditavelmente,
o mesmíssimo semblante.

Um pescoço alongado,
olhar de quem assiste
a mesquinhez da existência
de um altar pecaminoso,
lábios levemente rachados,
hálito amadeirado
e as maçãs do rosto
que dão nas vistas.

A madrugada não engana
que entre as suas magras pernas
há um vale profundo.

Sem hesitar em lhe dar a resposta 
para quaisquer que sejam 
as suas dúvidas,
a madrugada não joga sujo
nem foge a cara à tapa.

A madrugada não abandona,
ela permanece.
Faz do tempo, oh danada,
uma estátua infantil
pregada na testa.

Ourives do silêncio,
a madrugada trabalha
e batalha,
com sua navalha,
na escultura
utópica da solidão,
alcançando
a sua forma
mais fina.


A madrugada,
está beijando,
devotamente,
a minha boca
com a língua.

8 de janeiro de 2015

Por falar em paixão


hoje
a minha
coxa esquerda
me lembrou
a textura
dos teus
cabelos


ontem
o céu refletiu
as tuas pupilas
dilatadas naquele dia
em que eu te pedi
para me contar
quantos planetas
brincam de tirar
o chapéu da ciência
do futuro


amanhã
é outro
hoje 
que tão logo
será 
um outro
ontem
cheio de estrelas


(Em 7 de Janeiro de 2015, n
a manhã amanhecida tardiamente.)

3 de janeiro de 2015

Sentimento do Universo

In memoriam a Carlos Drummond de Andrade



Tenho apenas uma boca,
e o sentimento do universo,
mas estou cheio de silêncio.
Minha saudade inventa epopeias
e o tempo vive num corpo antigo,
na pulsação de um amor urgente.


Quando estava prestes a ir embora, a língua
no céu da tua boca pronunciaste:
Nada. Morto o meu desejo, morto
o tempo que deixaste manco,
saqueei a saudade e parti.



Os jornais nunca estamparam
a notícia de que se pode sofrer 
de um silencioso amor
como se sofre de pânico numa guerra fria.
Sinto-me na fronteira do talvez.
Anterior a certezas,
depois de ultrapassar a agonia da ausência,
afundo os pés na areia molhada de mar e me perdoo.



Quando alucinei teu corpo
boiando sob as águas 
de ondas sabor lágrimas,
joguei flores brancas no teu sexo 
e fechei teus olhos.
Acordei amanhecido da noite longa,


esse longo anoitecer
mais sonho que o sonho. 




18 de novembro de 2014

TREZE ANOS EM TRÊS TEMPOS

Os algozes jogavam dados na mesa do tempo.
Quem sabe o que apostavam?
(Cecília Meireles)

I
Infância

Se a menina fosse feita
de farinha integral,
não perderia
a integridade anímica.

- Ninguém me confeitou,
disse em tom
de quem está
em guerra interestelar.

Sem ouvir o troco
nem sentir uma faísca sequer,
pôs a cereja do bolo
no umbigo
como quem dança
na pulsação da corda-bamba.

II
 Idade da razão

Quem mais faz
a si mesmo
é quem se desfaz
dos próprios defeitos
para criar outros
com mais trejeitos.

Quem mais faz
a si mesmo
é quem dá de ombros
à desfeita alheia
para satisfazer-se
ao capricho de seu bel-prazer.

III
Florescimento

A sina da menina
com a idade da razão
é temer passar toda
a vida sem sair do forno.

Tão cedo encontrará
,
dentro do próprio umbigo
,
um mapa de linhas sinuosas
com o segredo:

Definir-se pronta
é vestir-se de foice.

Quando cair-lhe a ficha
da crueldade do medo,
descobrir-se-á tão livre
que ficará nua, e parada,
em frente ao espelho.

Aos treze, entorpecida 
após vislumbrar-se
fora do mundo,
a menina quedou-se
,
integralmente
,
úmida.



15 de novembro de 2014

PERCA AS CONTA-GOTAS


Só quem ama
ama mais ainda.
Ser derretida é
não estar retida:

Deixar pingar
as gotas da paixão
entre as pernas
amantes.

O que seria amar
senão a sorte
de perder
os anéis
e os dedos
sem indenização alguma?

O delito passional
é o único crime
que liberta
e não castiga
os infiéis.

Prenda-me

e eu te corto
a cabeça
com a precisão cirúrgica
de uma louca.

Ama-me

e eu costuro os fios
dos meus cabelos
nos pelos
do teu corpo nu.

Ama-me

e eu enfio
a minha língua
nos sete buracos
do teu rosto.

Ama-me

e eu te dou
o meu corpo
para o amor
de carne.

Ama-me

e eu te livro
do código penal
e da crença
na reencarnação.

Ama-me

e eu te-me-faço
mistério
em estado puro.

Ama-me


para amar
ainda mais.





11 de novembro de 2014

Há um nó na garganta do silêncio

"O resto é silêncio" - Hamlet na tragédia de Shakespeare

Para Julia Bicalho Mendes




Se eu pudesse
entregar a você
o meu silêncio
com as mãos
em concha
,

seríamos 
nós
um
oceano
pacífico
.

Mas

um

na
gar
gan
ta
do
...


- Silêncio!
É o grito
do suicida
místico
.

Afogou-se
pela âncora
de um navio-fóssil
em pleno mar
de ondas bélicas
.

No enterro
ninguém
nunca mais
disse nada
.

Na lápide
,
gravada
na pedra da
costa da praia
,
a mensagem da garrafa
pescada pela dor
:

Silêncio
é a palavra
que mais dura
na língua
.

8 de novembro de 2014

OS INSABIDOS

Para R.


Pouco sei sobre este homem. Conheci-o ainda menino quando eu, do mesmo modo trágico, também era menina.

O sol era um escândalo num céu azul cor de olho humano em pleno ano 2000, onde tudo era promessa de futuro ou apocalipse. O sol era um escândalo e supervisionava a cena estapafúrdia de crianças esquecidas, sem a tutela de crescidos quaisquer, muito menos daqueles que os puseram no mundo, numa piscina de clube em formato estratosfericamente largo, comprido e descomunal. 

Era uma sexta-feira apaixonada de verão em férias. 

Os amigos de Vinícius nadaram em direção ao miolinho das meninas; eu era uma delas. Os meninos se aproximaram, ele vinha lentamente logo atrás, espumando em covardia sobre as águas sabor cloro e urina. De súbito, um dos amigos dele bradou a notícia:

– Vinícius quer falar com Beatriz.

Como um balé olímpico acidental, enquanto os meninos nadaram para trás de Vinícius, num movimento gelatinoso que evidenciava a dúvida ética queriam deixá-lo à vontade com Beatriz, mas numa distância que favorecesse a captura de toda a circunstância, pois estavam, é claro, com os hormônios acesos pelo furor documental da idade , enquanto os meninos nadaram para trás de Vinícius, as meninas dançaram mergulhadas apenas passinhos tímidos para trás da escolhida (o queixo de uma delas quase se apoiou no ombro dela) por não estarem enganadas de que precisariam proteger Beatriz do que ali, naquela piscina oceânica, aconteceria.

Vinícius era você e eu, a Beatriz. Ao redor de nosso protagonismo, em um círculo torto, as crianças estavam atentas à cena estapafúrdia. O sol escandaloso queimava em nós, em cada sopro de fogo fatal, a puerícia. Todos queimados e molhados pela novidade que presenciariam. Os nossos pais, pobres inconsequentes, nunca mais nos conteriam a razão sentimental, pois passaríamos a saber de tudo do futuro promissor e do apocalipse depois de finda a cena.

De repente os meus olhos bastaram-se em alcançar somente a sua beleza. As crianças, numa mágica do amor, evaporaram. Qualquer coisa, pensei, digo que o sol as engoliu num rompante ou que se abriu uma cratera vulcânica nos azulejos frágeis da piscina do clube mal cuidado, levando-as todas ao centro cósmico Universal. Qualquer coisa assim, eu diria. Todavia, penso que, em verdade, em nada pensei. Fiquei a esperar.

A notícia “Vinícius quer falar com Beatriz” era de uma grandeza torpe e ecoava no meu corpo pequeno. Você, num embaraço revelador, afundava a cabeça para não ter que suportar a minha espera tão feminina. Não aguentava ficar afundado tanto tempo, por lógica biológica – não éramos peixes, aliás, você escorpião, eu leão, rimou – e voltava à superfície com os cabelos ainda mais compridos, por estarem encharcados, sob a bela cara. Eclipsava-se quase totalmente, somente não por completo porque, apesar do cloro e da urina, a água gentilmente ainda me deixava ver você. Depois passei a vê-lo até de olhos bem fechados. Mas antes do depois, a cena primordial.

Eu já estava no tédio e na desesperança e você, parecendo ter hidratado a coragem, emergiu das águas e me disse para eu ficar com você. Era ano 2000, você com doze anos. Onze anos eu tinha. Você, com seu futuro promissor. Eu, anunciadamente, uma apocalíptica de amor. Para eu ficar com você, você disse. Disse isto e abruptamente, em seguida à fala apaixonada daquela sexta-feira de verão em férias, afundou-se na piscina levemente blue, nadando feito peixe-menino para o outro canto da piscina longa, comprida e descomunal.

Antes de você se tornar o homem de quem pouco sei, teve aquele outro acontecimento. Sete anos depois do ano dois mil.

Você deu três indelicados socos seguidos na porta do meu quarto para me advertir que entraria. E entrou. Entrou todo cheio de passos largos, sorriso do gato da Alice, olhos com sombras. Eu estava deitada na rede cor da rebeldia, laranja e amarela inteira, lendo Rimbaud – Une saison en enfer. Já era outra cidade, o sol mal entrava pela janela, tanto pela arquitetura da selva de concreto, tanto pela época amarga do inverno. Fazia frio e na sua cama faltava lençol. Você veio me perguntar, fingindo respeito ao que eu carregava no peito, se por mim não haveria qualquer objeção a seu desejo de querer ficar a ler um texto para a matéria da faculdade deitado na minha cama. Você na minha cama e eu na rede. Era para eu estar obstinadamente dedicada aos exercícios de matemática para passar no vestibular, você, inclusive, cobrava-me os bem malditos estudos burocráticos, mas eu estava desesperadamente agarrada ao Rimbaud pelas mãos. Talvez para não cair na tentação dos nossos mau-ditos.

Você leu meia página do seu texto acadêmico e lamentou-se de dor nas costas, demandando, num tom óbvio, as minhas mãos agarradas nas suas costas e não em Rimbaud. Você era um ciumento incurável. Apocalíptica de amor, eu aceitei o seu lamento. Recordo a cena de você deitado de bruços na minha cama, o hidratante de morango e champagne da Victoria’s secret concedendo a dança dos meus dedos sob a sua pele das costas e, da ordem do irrepresentável, os fascínios de Ella Fitzgerald & Louis Armstrong vinham do aparelho de som e preenchiam o ar à meia luz. 

Naquela noite, a minha primeira vez, eu escrevi no meu diário que havia ficado grávida. Eu menti para mim mesma, mas, no profundíssimo corredor vertiginoso da minha identidade, eu sabia ser isto uma verdade. Em uma carta absurda que enderecei a você, depois que chegou de uma viagem para o exterior (de mim), eu descrevi o amor que carregava por você como sendo algo fisiológico na distância de meu início. Era exagero apocalíptico: os dois pontuais acontecimentos, agora epistolarmente desmascarados do rosto da minha ilusão, foram da ordem do encontro irremediável.

Aconteceu que o seu embaraço de menino fincou, melhor dizer, reconheceu em mim uma delicadeza com a potência máxima da feminilidade, que eu já sentia pertencer a mim, contudo, recusava-a por culpa precoce. Eu, tão corpo pequeno, boiando sob as águas sensuais da descoberta, carregava antecipadamente uma culpa e um juízo que a mim não cabia tanto pesar. Foi quase como se você tivesse me revelado a mim. E a vida, anos depois, por um acaso que desconfio, pôs-me a morar num quarto ao lado do seu.

Nesta época, eu, afogada na confusão da razão sentimental, entre culpa fulminante e desejo ardente, meio Antígona, misurderstood da cabeça aos pés, estava outra vez esquecida da delicadeza. E o seu olhar, você não soube disto pois eu não pude lhe contar, embora eu nunca tenha duvidado da sua sensível inteligência, desnudava-me de tal maneira que, ao seu alcance perceptivo, era insuportável ser a mentira apocalíptica que eu mesma fecundei em mim propositalmente. Impossível manter a farsa em presença sua, você que fez parte do encontro irremediável. Então, a cena: uma criatura nadando contra a maré forte, imponente e imperturbável da natureza maior: de.li.ca.de.za.

O filho não veio, eu apocalipsei sempre mais, o amor eclipsou. Mudei de quarto, de bairro, para bem longe de você. Contudo, de olhos bem fechados, eu fico pensando em que homem você se tornou agora que eu me sei mulher; e que você pouco sabe disto. Nós somos insabidos um ao outro. Eu não pude lhe contar. Quer me falar algo? Não se afunde. Não se eclipse.

Não se afunde, peixe-homem. Não se eclipse oculto na luz do verão. Não se afund. Não se eclips. Não se afun. Não se eclip. Não se afu. Não se ecli. Não se af. Não se ecl. Não se a. Não se ec. Não se. Não s. Não. Nã. N. (Silêncio)

         .

4 de novembro de 2014

Engordei o sol


Para Dahlia Dwek


Às vezes eu ando meio noite.
De tempos em ventos,
ando meio dia
até quando o relógio 
grita: - É meia noite!


Dei de comer e beber
ao sol noturno,
assim como Cecília 
deu de comer
aos pássaros 
e deu de beber 
à terra.


A palavra tem
mais fome
e mais sede
do que o homem.

19 de outubro de 2014

Interlúdio de Mim e Eu

Não sem o conhecimento do pouco esforço das minhas pernas atemporais, mas eu tive que me por a descer a escada para encontrar a agulha do passado. A luta por esta agulha que me alfineta os olhos só para eu poder chorar a vida fora o meu décimo terceiro trabalho de Hércules.

Ou o primeiro botão da minha camisa não servia à sua casa ou passou a servir demais e se viu escravo em treze de maio de mil oitocentos e oito. A liberdade do primeiro botão da minha camisa e o meu navio negreiro aprisionado. O botão, antes dentro de sua casa, escondera as duas maiores das minhas cicatrizes. Porém, a âncora negra de meu navio lançara a minha exposição. A exposição que me sustentara ao próximo passo freado. 

Sinfonia nº 5, primeiro movimento, e eu estacionada num degrau da escada: o tempo, em uma de suas faces, mostrava a eternidade da subida ao tombar a cabeça para trás e, em outra face, indicava a solução plausível para a minha busca na cauda de meu dorso e continuação de mim: a descida.

A agulha do passado que eu não vejo, somente sinto e choro, era necessária em minhas mãos pouco hábeis e feitas para não costurar, apalpar, alcançar. Era preciso que eu tivesse em minhas mãos, meretrizes de cicatrizes, a agulha; viver não é preciso. Deixei tombar a cabeça até ultrapassar o pescoço e a direção vertical dos meus calcanhares (de Aquiles), perdendo o equilíbrio e seguindo o peso da âncora. Caindo. Eu me caindo escada a fora.

Conspirei com todo o meu poder de ser me constituindo: inventei um alguém que era eu. Senti repulsa daquele pífio que era genuíno de meus enganos, monstro engrandecido de minha aparência e que tinha outro corpo, embora outro da mesma carne. E que tinha outro corpo: a mitologia manifestada. Quis outro tamanho de mãos, outras dores, outra vida e fugi. Tentei fugir: desloquei de modo louco as minhas pernas atemporais do pouco esforço das minhas pernas. A sombra de mim me ultrapassava e comia a minha sombra. Eu corria em volta da mesa de vidro de doze lugares – doze espaços no tempo: trezentos e sessenta e cinco dias –, eu corria em volta da mesa de vidro e eu quase me alcançando. 

Eu quase me alcançando, correndo janeiro, março, maio, julho, agosto, outubro, dezembro e eu corria sabendo que a minha coragem era a de não olhar para mim para desconhecer para sempre a distância que existia entre mim e eu. Correndo fevereiro, abril, junho, setembro, novembro e do canto do meu olho esquerdo – feito esquina de labirinto – eu vi que eu me vi sentindo já a vitória da minha derrota de mim e eu ser um desacompanhado ser em carne. Então, o grande momento: eu entrei em mim e fui me transformando em eu. Eu em mim tomando a mesa e estraçalhando o vidro em cacos minúsculos por toda a parte; eu em mim ocupando os doze lugares da mesa desconfigurada. Cinco e sessenta e trezentos cacos de vidro. 

A vingança da organização da solidão, eu era enfim um ser desacompanhado em carne, cravou-me o tórax fazendo-me dois, para sempre: dois cacos de vidro fizeram morada forçada no meu peito que jorrava sangue para expelir os cacos que ali se fincaram.

No meu tórax, em simetria horizontal – por fingida indulgência ao meu sangue fraco –, dois pedaços afiados de vidro mantiveram morada e terminaram por inchar a minha carne em dois tamanhos análogos, que apodreceram rígidos e com uma quantia de sangue coagulado nas pontas de suas superfícies. Os bicos de cada uma destas carnes inchadas tornaram-se as minhas maiores cicatrizes.

Petulância da âncora que me avisou o fim da queda ao quebrar as minhas pernas pelo impacto, meu dorso em dor e as minhas pernas marcadas pelo tempo. Tudo é temporal. O tempo havia me sido dado e encontrei a agulha do passado no meu primeiro nascimento. Para evitar o décimo quarto trabalho, não procurei botão na minha pré-morte de mim e eu muito menos pregá-lo-ia à camisa se enfim o encontrasse na desordem dos vidros espalhados. Assim, para evitar o décimo quarto trabalho, costurei os tecidos de cada lado da camisa, libertando-me da exposição.

A escada me fizera temer a volta. Recordei, contudo, a dimensão das minhas mãos e tombei a cabeça para trás como se antecipasse um enfrentamento à subida. Tudo é temporal exceto a escada que é o próprio tempo. Quero a minha vida, a minha morte e, ainda, a minha pós-morte. E subi. Subi com as mãos e com a agulha do passado me alfinetando os olhos só para eu poder chorar a vida.

Conto originalmente escrito e publicado em 2007. Editado por mim mesma neste 2014.


2 de outubro de 2014

Um ser sem espécie semântica




O homem é coisa
enigmaticamente curiosa:
perde uma vida inteira
explicando o que
não tem explicação,
inventa palavra
para ser mal-entendido
e mal-entender,
dizer e desdizer,
e até explica a palavra
que ele mesmo criou
para significar
o que não se pode
exprimir por palavras:
i.ne.fá.vel

Disse Michaelis:
inefável
adjetivo
(do latim ineffabile)
Que não se pode
exprimir por palavras.

Revoltado por não caber
no dicionário,
o homem dedica-se
a explicar tudo
- até o que fica
entre o silêncio
de cada palavra -
para desviar a atenção
da definição de si mesmo.

Talvez somente
se possa ter
uma faísca de luz
sobre o enigma
do ser do homem
na cadência
de versos poéticos,
o lugar da grandeza
da falta de sentido.

Na poesia
há a invenção
da explicação
fora do terno
da ciência.

Aqui eu te invento,
homem.
E te segredo o amor,
aquele outro indizível:

Você é um ser
indicionário,
sem espécie semântica,
que vai durar
na minha boca
enquanto
houver verso
para eu te virar
do avesso.




23 de abril de 2014

Três Emes Professorais & O Xis intransigente


Deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre 
Caetano Veloso em Elegia

Mística
que é a proparoxítona da sensibilidade do
Mistério
que é a paroxítona do continente negro da
Mulher
que é o clímax do x da questão
Histérica
que é proparoxítona que não inicia com M


17 de dezembro de 2013

A ESCRITA DE MIM

“Estou com a impressão de que ando me imitando um pouco.
O pior plágio é o que se faz de si mesmo.” Clarice Lispector

De um lado,
os pés na lama
da noite.

Do outro,
as dez unhas
agarradas
ao sol de teu sorriso.


Aqui,
o meu nariz afundado
na tua barba macia.


Ali,
as minhas pernas
cobertas com a areia
de um oceano infernal.

Entre uma coisa e outra:
o corpo elástico de mulher
e um fiel coração de pressão.

- Eu te amo pra sempre!
- Fique comigo, baby!
digo a ti quando a visão m'escapa.

De olhos
escandalosamente
abertos,
os pulmões gritam,
como se exibindo
as suas asas
:
- A vida é impossível
e nunca!

A noite não cabe no dia,
assim como o óbvio contrário disso,
o tempo está em tudo,
todavia,
e me preenche de vazio.

Nas ocasiões
em que o coração
é uma gelatina em mãos
de criança perversa,

E o corpo 
um tecido engolido 
pelo vento seco 
da metrópole
que vem da janela,

Sou in-óbvia,
confessional,
confusa no fuso
das horas,
e escrevo o corpo
de um 
diário noturno
co'as letras.


Quem (sol) eu:

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'O ar está tão carregado de espíritos que não sabemos como lhes escapar.'(Goethe in Fausto)

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