Diários Noturnos

Diários Noturnos

13 de janeiro de 2015

Dois mil e quinze vírgula

2015, 
você tem 
um cheiro engraçado. 
Cheiro de sapato novo 
de borracha.

Andando por janeiro, 
vai passando pela calçada 
da primeira rua do calendário,
apagando as vírgulas do passado.

,
,
,

Meia nove



Um vaso
é um
abraço
no vazio.

Mas há 
o vazio
no vaso.

A boca
do vaso
é o ânus
do vazio.

9 de janeiro de 2015

Página arrancada do diário

14 de Dezembro de 2013.


Acordei com você. Data estranha. Passou um ano quase inteiro e parece que fiquei a me encarar no espelho enquanto o reflexo da vida cinematograficamente mudava o cenário que preenchia o ar por detrás das minhas costas. Uma solidão ensimesmada que acordava apressada todas as manhãs, maquiava-se belamente, recebia olhares - intocáveis -, estudava e trabalhava de se reinventar em papéis tantos - e tortos - onde o sorriso que esmaga as minhas bochechas, salientando-as, era o único lugar-comum do travestido cotidiano. Nunca deixo de sorrir, pois, já aprendi isto profundamente, sou esperançada e me espanto com esta vida grande e impossível. 

Sempre que me despeço de você cai uma lágrima do meu sorriso; as minhas íris caem na ansiedade negra das pupilas. Olhos que se tornam intocáveis e distantes. Não são intocáveis os outros olhos. Eu que, de tão pura, me afasto dos olhares. 

Ontem, quando andávamos intranquilos pela noite dilatada, você me disse que na época medieval quem frequentava as ruas durante a alta noite eram somente os santos ou os loucos. E ontem éramos nós, loucos e santos, num mundo que pelo exagero globalizado se fez medieval. Andávamos solitários, pisando medrosamente nas pupilas do mistério noturno. Toda pureza santificada é uma espécie de loucura, não é? De repente o espelho vira o cinema que antes rodava no ar por detrás das minhas costas. Ponho os olhos a fitar o ângulo mais alto que alcanço com a dimensão calculadamente delineada por um Deus santo-insano de meu corpo e toco o impossível que sou eu.

Acordo cansada quando durmo com você. Confusa que fico se estou já desperta ou se ainda sonho. Cante para mim, por favor, Strawberry fields forever? Venero religiosamente, como uma louca, a tua voz aveludada. Estou na realidade, contudo, cante cante cante até que eu caia nas profundezas do umbigo inconsciente. Living is easy with eyes closed.

I'll send all my loving to you,

R.

Fidelidade entre as pernas

Desde o meu primeiro inverno,
a madrugada é o espírito mais fiel
de que tenho notícia.

Vestindo vermelho ou negro,
tem, inacreditavelmente,
o mesmíssimo semblante.

Um pescoço alongado,
olhar de quem assiste
a mesquinhez da existência
de um altar pecaminoso,
lábios levemente rachados,
hálito amadeirado
e as maçãs do rosto
que dão nas vistas.

A madrugada não engana
que entre as suas magras pernas
há um vale profundo.

Sem hesitar em lhe dar a resposta 
para quaisquer que sejam 
as suas dúvidas,
a madrugada não joga sujo
nem foge a cara à tapa.

A madrugada não abandona,
ela permanece.
Faz do tempo, oh danada,
uma estátua infantil
pregada na testa.

Ourives do silêncio,
a madrugada trabalha
e batalha,
com sua navalha,
na escultura
utópica da solidão,
alcançando
a sua forma
mais fina.


A madrugada,
está beijando,
devotamente,
a minha boca
com a língua.

8 de janeiro de 2015

Por falar em paixão


hoje
a minha
coxa esquerda
me lembrou
a textura
dos teus
cabelos


ontem
o céu refletiu
as tuas pupilas
dilatadas naquele dia
em que eu te pedi
para me contar
quantos planetas
brincam de tirar
o chapéu da ciência
do futuro


amanhã
é outro
hoje 
que tão logo
será 
um outro
ontem
cheio de estrelas


(Em 7 de Janeiro de 2015, n
a manhã amanhecida tardiamente.)

3 de janeiro de 2015

Sentimento do Universo

In memoriam a Carlos Drummond de Andrade



Tenho apenas uma boca,
e o sentimento do universo,
mas estou cheio de silêncio.
Minha saudade inventa epopeias
e o tempo vive num corpo antigo,
na pulsação de um amor urgente.


Quando estava prestes a ir embora, a língua
no céu da tua boca pronunciaste:
Nada. Morto o meu desejo, morto
o tempo que deixaste manco,
saqueei a saudade e parti.



Os jornais nunca estamparam
a notícia de que se pode sofrer 
de um silencioso amor
como se sofre de pânico numa guerra fria.
Sinto-me na fronteira do talvez.
Anterior a certezas,
depois de ultrapassar a agonia da ausência,
afundo os pés na areia molhada de mar e me perdoo.



Quando alucinei teu corpo
boiando sob as águas 
de ondas sabor lágrimas,
joguei flores brancas no teu sexo 
e fechei teus olhos.
Acordei amanhecido da noite longa,


esse longo anoitecer
mais sonho que o sonho. 




18 de novembro de 2014

TREZE ANOS EM TRÊS TEMPOS

Os algozes jogavam dados na mesa do tempo.
Quem sabe o que apostavam?
(Cecília Meireles)

I
Infância

Se a menina fosse feita
de farinha integral,
não perderia
a integridade anímica.

- Ninguém me confeitou,
disse em tom
de quem está
em guerra interestelar.

Sem ouvir o troco
nem sentir uma faísca sequer,
pôs a cereja do bolo
no umbigo
como quem dança
na pulsação da corda-bamba.

II
 Idade da razão

Quem mais faz
a si mesmo
é quem se desfaz
dos próprios defeitos
para criar outros
com mais trejeitos.

Quem mais faz
a si mesmo
é quem dá de ombros
à desfeita alheia
para satisfazer-se
ao capricho de seu bel-prazer.

III
Florescimento

A sina da menina
com a idade da razão
é temer passar toda
a vida sem sair do forno.

Tão cedo encontrará
,
dentro do próprio umbigo
,
um mapa de linhas sinuosas
com o segredo:

Definir-se pronta
é vestir-se de foice.

Quando cair-lhe a ficha
da crueldade do medo,
descobrir-se-á tão livre
que ficará nua, e parada,
em frente ao espelho.

Aos treze, entorpecida 
após vislumbrar-se
fora do mundo,
a menina quedou-se
,
integralmente
,
úmida.



15 de novembro de 2014

PERCA AS CONTA-GOTAS


Só quem ama
ama mais ainda.
Ser derretida é
não estar retida:

Deixar pingar
as gotas da paixão
entre as pernas
amantes.

O que seria amar
senão a sorte
de perder
os anéis
e os dedos
sem indenização alguma?

O delito passional
é o único crime
que liberta
e não castiga
os infiéis.

Prenda-me

e eu te corto
a cabeça
com a precisão cirúrgica
de uma louca.

Ama-me

e eu costuro os fios
dos meus cabelos
nos pelos
do teu corpo nu.

Ama-me

e eu enfio
a minha língua
nos sete buracos
do teu rosto.

Ama-me

e eu te dou
o meu corpo
para o amor
de carne.

Ama-me

e eu te livro
do código penal
e da crença
na reencarnação.

Ama-me

e eu te-me-faço
mistério
em estado puro.

Ama-me


para amar
ainda mais.





11 de novembro de 2014

Há um nó na garganta do silêncio

"O resto é silêncio" - Hamlet na tragédia de Shakespeare

Para Julia Bicalho Mendes




Se eu pudesse
entregar a você
o meu silêncio
com as mãos
em concha
,

seríamos 
nós
um
oceano
pacífico
.

Mas

um

na
gar
gan
ta
do
...


- Silêncio!
É o grito
do suicida
místico
.

Afogou-se
pela âncora
de um navio-fóssil
em pleno mar
de ondas bélicas
.

No enterro
ninguém
nunca mais
disse nada
.

Na lápide
,
gravada
na pedra da
costa da praia
,
a mensagem da garrafa
pescada pela dor
:

Silêncio
é a palavra
que mais dura
na língua
.

8 de novembro de 2014

OS INSABIDOS

Para R.


Pouco sei sobre este homem. Conheci-o ainda menino quando eu, do mesmo modo trágico, também era menina.

O sol era um escândalo num céu azul cor de olho humano em pleno ano 2000, onde tudo era promessa de futuro ou apocalipse. O sol era um escândalo e supervisionava a cena estapafúrdia de crianças esquecidas, sem a tutela de crescidos quaisquer, muito menos daqueles que os puseram no mundo, numa piscina de clube em formato estratosfericamente largo, comprido e descomunal. 

Era uma sexta-feira apaixonada de verão em férias. 

Os amigos de Vinícius nadaram em direção ao miolinho das meninas; eu era uma delas. Os meninos se aproximaram, ele vinha lentamente logo atrás, espumando em covardia sobre as águas sabor cloro e urina. De súbito, um dos amigos dele bradou a notícia:

– Vinícius quer falar com Beatriz.

Como um balé olímpico acidental, enquanto os meninos nadaram para trás de Vinícius, num movimento gelatinoso que evidenciava a dúvida ética queriam deixá-lo à vontade com Beatriz, mas numa distância que favorecesse a captura de toda a circunstância, pois estavam, é claro, com os hormônios acesos pelo furor documental da idade , enquanto os meninos nadaram para trás de Vinícius, as meninas dançaram mergulhadas apenas passinhos tímidos para trás da escolhida (o queixo de uma delas quase se apoiou no ombro dela) por não estarem enganadas de que precisariam proteger Beatriz do que ali, naquela piscina oceânica, aconteceria.

Vinícius era você e eu, a Beatriz. Ao redor de nosso protagonismo, em um círculo torto, as crianças estavam atentas à cena estapafúrdia. O sol escandaloso queimava em nós, em cada sopro de fogo fatal, a puerícia. Todos queimados e molhados pela novidade que presenciariam. Os nossos pais, pobres inconsequentes, nunca mais nos conteriam a razão sentimental, pois passaríamos a saber de tudo do futuro promissor e do apocalipse depois de finda a cena.

De repente os meus olhos bastaram-se em alcançar somente a sua beleza. As crianças, numa mágica do amor, evaporaram. Qualquer coisa, pensei, digo que o sol as engoliu num rompante ou que se abriu uma cratera vulcânica nos azulejos frágeis da piscina do clube mal cuidado, levando-as todas ao centro cósmico Universal. Qualquer coisa assim, eu diria. Todavia, penso que, em verdade, em nada pensei. Fiquei a esperar.

A notícia “Vinícius quer falar com Beatriz” era de uma grandeza torpe e ecoava no meu corpo pequeno. Você, num embaraço revelador, afundava a cabeça para não ter que suportar a minha espera tão feminina. Não aguentava ficar afundado tanto tempo, por lógica biológica – não éramos peixes, aliás, você escorpião, eu leão, rimou – e voltava à superfície com os cabelos ainda mais compridos, por estarem encharcados, sob a bela cara. Eclipsava-se quase totalmente, somente não por completo porque, apesar do cloro e da urina, a água gentilmente ainda me deixava ver você. Depois passei a vê-lo até de olhos bem fechados. Mas antes do depois, a cena primordial.

Eu já estava no tédio e na desesperança e você, parecendo ter hidratado a coragem, emergiu das águas e me disse para eu ficar com você. Era ano 2000, você com doze anos. Onze anos eu tinha. Você, com seu futuro promissor. Eu, anunciadamente, uma apocalíptica de amor. Para eu ficar com você, você disse. Disse isto e abruptamente, em seguida à fala apaixonada daquela sexta-feira de verão em férias, afundou-se na piscina levemente blue, nadando feito peixe-menino para o outro canto da piscina longa, comprida e descomunal.

Antes de você se tornar o homem de quem pouco sei, teve aquele outro acontecimento. Sete anos depois do ano dois mil.

Você deu três indelicados socos seguidos na porta do meu quarto para me advertir que entraria. E entrou. Entrou todo cheio de passos largos, sorriso do gato da Alice, olhos com sombras. Eu estava deitada na rede cor da rebeldia, laranja e amarela inteira, lendo Rimbaud – Une saison en enfer. Já era outra cidade, o sol mal entrava pela janela, tanto pela arquitetura da selva de concreto, tanto pela época amarga do inverno. Fazia frio e na sua cama faltava lençol. Você veio me perguntar, fingindo respeito ao que eu carregava no peito, se por mim não haveria qualquer objeção a seu desejo de querer ficar a ler um texto para a matéria da faculdade deitado na minha cama. Você na minha cama e eu na rede. Era para eu estar obstinadamente dedicada aos exercícios de matemática para passar no vestibular, você, inclusive, cobrava-me os bem malditos estudos burocráticos, mas eu estava desesperadamente agarrada ao Rimbaud pelas mãos. Talvez para não cair na tentação dos nossos mau-ditos.

Você leu meia página do seu texto acadêmico e lamentou-se de dor nas costas, demandando, num tom óbvio, as minhas mãos agarradas nas suas costas e não em Rimbaud. Você era um ciumento incurável. Apocalíptica de amor, eu aceitei o seu lamento. Recordo a cena de você deitado de bruços na minha cama, o hidratante de morango e champagne da Victoria’s secret concedendo a dança dos meus dedos sob a sua pele das costas e, da ordem do irrepresentável, os fascínios de Ella Fitzgerald & Louis Armstrong vinham do aparelho de som e preenchiam o ar à meia luz. 

Naquela noite, a minha primeira vez, eu escrevi no meu diário que havia ficado grávida. Eu menti para mim mesma, mas, no profundíssimo corredor vertiginoso da minha identidade, eu sabia ser isto uma verdade. Em uma carta absurda que enderecei a você, depois que chegou de uma viagem para o exterior (de mim), eu descrevi o amor que carregava por você como sendo algo fisiológico na distância de meu início. Era exagero apocalíptico: os dois pontuais acontecimentos, agora epistolarmente desmascarados do rosto da minha ilusão, foram da ordem do encontro irremediável.

Aconteceu que o seu embaraço de menino fincou, melhor dizer, reconheceu em mim uma delicadeza com a potência máxima da feminilidade, que eu já sentia pertencer a mim, contudo, recusava-a por culpa precoce. Eu, tão corpo pequeno, boiando sob as águas sensuais da descoberta, carregava antecipadamente uma culpa e um juízo que a mim não cabia tanto pesar. Foi quase como se você tivesse me revelado a mim. E a vida, anos depois, por um acaso que desconfio, pôs-me a morar num quarto ao lado do seu.

Nesta época, eu, afogada na confusão da razão sentimental, entre culpa fulminante e desejo ardente, meio Antígona, misurderstood da cabeça aos pés, estava outra vez esquecida da delicadeza. E o seu olhar, você não soube disto pois eu não pude lhe contar, embora eu nunca tenha duvidado da sua sensível inteligência, desnudava-me de tal maneira que, ao seu alcance perceptivo, era insuportável ser a mentira apocalíptica que eu mesma fecundei em mim propositalmente. Impossível manter a farsa em presença sua, você que fez parte do encontro irremediável. Então, a cena: uma criatura nadando contra a maré forte, imponente e imperturbável da natureza maior: de.li.ca.de.za.

O filho não veio, eu apocalipsei sempre mais, o amor eclipsou. Mudei de quarto, de bairro, para bem longe de você. Contudo, de olhos bem fechados, eu fico pensando em que homem você se tornou agora que eu me sei mulher; e que você pouco sabe disto. Nós somos insabidos um ao outro. Eu não pude lhe contar. Quer me falar algo? Não se afunde. Não se eclipse.

Não se afunde, peixe-homem. Não se eclipse oculto na luz do verão. Não se afund. Não se eclips. Não se afun. Não se eclip. Não se afu. Não se ecli. Não se af. Não se ecl. Não se a. Não se ec. Não se. Não s. Não. Nã. N. (Silêncio)

         .

4 de novembro de 2014

Engordei o sol


Para Dahlia Dwek


Às vezes eu ando meio noite.
De tempos em ventos,
ando meio dia
até quando o relógio 
grita: - É meia noite!


Dei de comer e beber
ao sol noturno,
assim como Cecília 
deu de comer
aos pássaros 
e deu de beber 
à terra.


A palavra tem
mais fome
e mais sede
do que o homem.

19 de outubro de 2014

Interlúdio de Mim e Eu

Não sem o conhecimento do pouco esforço das minhas pernas atemporais, mas eu tive que me por a descer a escada para encontrar a agulha do passado. A luta por esta agulha que me alfineta os olhos só para eu poder chorar a vida fora o meu décimo terceiro trabalho de Hércules.

Ou o primeiro botão da minha camisa não servia à sua casa ou passou a servir demais e se viu escravo em treze de maio de mil oitocentos e oito. A liberdade do primeiro botão da minha camisa e o meu navio negreiro aprisionado. O botão, antes dentro de sua casa, escondera as duas maiores das minhas cicatrizes. Porém, a âncora negra de meu navio lançara a minha exposição. A exposição que me sustentara ao próximo passo freado. 

Sinfonia nº 5, primeiro movimento, e eu estacionada num degrau da escada: o tempo, em uma de suas faces, mostrava a eternidade da subida ao tombar a cabeça para trás e, em outra face, indicava a solução plausível para a minha busca na cauda de meu dorso e continuação de mim: a descida.

A agulha do passado que eu não vejo, somente sinto e choro, era necessária em minhas mãos pouco hábeis e feitas para não costurar, apalpar, alcançar. Era preciso que eu tivesse em minhas mãos, meretrizes de cicatrizes, a agulha; viver não é preciso. Deixei tombar a cabeça até ultrapassar o pescoço e a direção vertical dos meus calcanhares (de Aquiles), perdendo o equilíbrio e seguindo o peso da âncora. Caindo. Eu me caindo escada a fora.

Conspirei com todo o meu poder de ser me constituindo: inventei um alguém que era eu. Senti repulsa daquele pífio que era genuíno de meus enganos, monstro engrandecido de minha aparência e que tinha outro corpo, embora outro da mesma carne. E que tinha outro corpo: a mitologia manifestada. Quis outro tamanho de mãos, outras dores, outra vida e fugi. Tentei fugir: desloquei de modo louco as minhas pernas atemporais do pouco esforço das minhas pernas. A sombra de mim me ultrapassava e comia a minha sombra. Eu corria em volta da mesa de vidro de doze lugares – doze espaços no tempo: trezentos e sessenta e cinco dias –, eu corria em volta da mesa de vidro e eu quase me alcançando. 

Eu quase me alcançando, correndo janeiro, março, maio, julho, agosto, outubro, dezembro e eu corria sabendo que a minha coragem era a de não olhar para mim para desconhecer para sempre a distância que existia entre mim e eu. Correndo fevereiro, abril, junho, setembro, novembro e do canto do meu olho esquerdo – feito esquina de labirinto – eu vi que eu me vi sentindo já a vitória da minha derrota de mim e eu ser um desacompanhado ser em carne. Então, o grande momento: eu entrei em mim e fui me transformando em eu. Eu em mim tomando a mesa e estraçalhando o vidro em cacos minúsculos por toda a parte; eu em mim ocupando os doze lugares da mesa desconfigurada. Cinco e sessenta e trezentos cacos de vidro. 

A vingança da organização da solidão, eu era enfim um ser desacompanhado em carne, cravou-me o tórax fazendo-me dois, para sempre: dois cacos de vidro fizeram morada forçada no meu peito que jorrava sangue para expelir os cacos que ali se fincaram.

No meu tórax, em simetria horizontal – por fingida indulgência ao meu sangue fraco –, dois pedaços afiados de vidro mantiveram morada e terminaram por inchar a minha carne em dois tamanhos análogos, que apodreceram rígidos e com uma quantia de sangue coagulado nas pontas de suas superfícies. Os bicos de cada uma destas carnes inchadas tornaram-se as minhas maiores cicatrizes.

Petulância da âncora que me avisou o fim da queda ao quebrar as minhas pernas pelo impacto, meu dorso em dor e as minhas pernas marcadas pelo tempo. Tudo é temporal. O tempo havia me sido dado e encontrei a agulha do passado no meu primeiro nascimento. Para evitar o décimo quarto trabalho, não procurei botão na minha pré-morte de mim e eu muito menos pregá-lo-ia à camisa se enfim o encontrasse na desordem dos vidros espalhados. Assim, para evitar o décimo quarto trabalho, costurei os tecidos de cada lado da camisa, libertando-me da exposição.

A escada me fizera temer a volta. Recordei, contudo, a dimensão das minhas mãos e tombei a cabeça para trás como se antecipasse um enfrentamento à subida. Tudo é temporal exceto a escada que é o próprio tempo. Quero a minha vida, a minha morte e, ainda, a minha pós-morte. E subi. Subi com as mãos e com a agulha do passado me alfinetando os olhos só para eu poder chorar a vida.

Conto originalmente escrito e publicado em 2007. Editado por mim mesma neste 2014.


2 de outubro de 2014

Um ser sem espécie semântica




O homem é coisa
enigmaticamente curiosa:
perde uma vida inteira
explicando o que
não tem explicação,
inventa palavra
para ser mal-entendido
e mal-entender,
dizer e desdizer,
e até explica a palavra
que ele mesmo criou
para significar
o que não se pode
exprimir por palavras:
i.ne.fá.vel

Disse Michaelis:
inefável
adjetivo
(do latim ineffabile)
Que não se pode
exprimir por palavras.

Revoltado por não caber
no dicionário,
o homem dedica-se
a explicar tudo
- até o que fica
entre o silêncio
de cada palavra -
para desviar a atenção
da definição de si mesmo.

Talvez somente
se possa ter
uma faísca de luz
sobre o enigma
do ser do homem
na cadência
de versos poéticos,
o lugar da grandeza
da falta de sentido.

Na poesia
há a invenção
da explicação
fora do terno
da ciência.

Aqui eu te invento,
homem.
E te segredo o amor,
aquele outro indizível:

Você é um ser
indicionário,
sem espécie semântica,
que vai durar
na minha boca
enquanto
houver verso
para eu te virar
do avesso.




23 de abril de 2014

Três Emes Professorais & O Xis intransigente


Deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre 
Caetano Veloso em Elegia

Mística
que é a proparoxítona da sensibilidade do
Mistério
que é a paroxítona do continente negro da
Mulher
que é o clímax do x da questão
Histérica
que é proparoxítona que não inicia com M


17 de dezembro de 2013

A ESCRITA DE MIM

“Estou com a impressão de que ando me imitando um pouco.
O pior plágio é o que se faz de si mesmo.” Clarice Lispector

De um lado,
os pés na lama
da noite.

Do outro,
as dez unhas
agarradas
ao sol de teu sorriso.


Aqui,
o meu nariz afundado
na tua barba macia.


Ali,
as minhas pernas
cobertas com a areia
de um oceano infernal.

Entre uma coisa e outra:
o corpo elástico de mulher
e um fiel coração de pressão.

- Eu te amo pra sempre!
- Fique comigo, baby!
digo a ti quando a visão m'escapa.

De olhos
escandalosamente
abertos,
os pulmões gritam,
como se exibindo
as suas asas
:
- A vida é impossível
e nunca!

A noite não cabe no dia,
assim como o óbvio contrário disso,
o tempo está em tudo,
todavia,
e me preenche de vazio.

Nas ocasiões
em que o coração
é uma gelatina em mãos
de criança perversa,

E o corpo 
um tecido engolido 
pelo vento seco 
da metrópole
que vem da janela,

Sou in-óbvia,
confessional,
confusa no fuso
das horas,
e escrevo o corpo
de um 
diário noturno
co'as letras.


11 de novembro de 2013

Amor remanescente na ponta da letra

Inspiro um cigarro,
sujo de café a língua,
ultrapasso teus olhos e finalizo,
sentindo o gozo da filosofia
sempre inacabada,
que - sim, meu amor -
toda a minha inspiração vital
habita o arcabouço misterioso
das reminiscências.

Contemplando o limite da minha pele,
confesso ainda mais:
o amor é possível somente
se me permito

1) ser o mapa do tesouro
da tua inteligência

2) ser a fruta carnívora
da tua fome existencial

3, 4, 5, 6, 7...) ser
a matemática ilógica que se reverbera
nos significantes do nosso simbolismo.




São Paulo, 10 de Maio de 2011.

5 de novembro de 2013

Nota

Uma dádiva 
da enunciação:
começar a fazer 
as pazes 
com o passado,
esta criança 
que não morre
nem depois da morte.





30 de outubro de 2013

De Sóis Noturnos


para Bárbara Lia


Atrás do espelho,
tinha um espelho.
Sou eu?

Neste,
eu estava
invertida.

Naquele,
eu estava
a me ver
vertiginosamente.

Branca de neve
sem madrasta:
eu sol.

Toda estampada
de sóis noturnos.

Nem quem,
espelho meu,
nem mais bela.
Só eu.

TRÊS TEMPOS
I
Inspirou:
- Eu sou?
II
Expelindo:
- Eu sol!
III
Morrerá:
- Eu só.

10 de outubro de 2013

Emoção: moção para fora

diante da palavra destrinçar
eu me excito
nada da coisa do meio molhada

é uma palavra que segura 
e interpela as raízes
dos meus cabelos que nascem na nuca
nada da coisa do meio molhada


eu
tombo

cabeça

: meus olhos em mar de ondinhas salgadas
é mais que erotismo em véu, minha amada palavra
é um virar-se a si mesma de água santificada
aquela sobre paixão amaciada em lágrima

10.10.2013 - 21:16

25 de setembro de 2013

uma não qualquer quarta-feira

ontem à noite eu vi um fantasma. era branco, voava e apareceu atrás da janela, com o cenário de um prédio do centro da cidade atrás de sua queda: foi caindo, mas voando, numa linha diagonal da direita para a esquerda.
"a queda, em si mesma, contém a ressurreição" (Rappoport, 18--).
nada mais óbvio do que ter visto um fantasma ontem à noite, depois de um dia de setembro de 2013 que foi de 2008 a 1989, passando depois por 1982 - com os olhos fixos, pingando de emoção, na poesia duma mulher que resolveu cair no túnel sem volta aos 30. a poesia poetiza independentemente sobre paixão. e é este o tema da minha vida.
cheguei a pensar que setembro deste ano veio como uma apunhaladinha injusta no ápice do cérebro. mas aí que fui surpreendida. alguma coisa tinha que acontecer. este mês me serviu como recaptura do tempo e do quanto ele custa. de susto em susto, vi um fantasma branco voando atrás da minha janela. um jeito de sentir esperança. dormi, depois disto, tão fundo que nem acordei para ir ao banheiro durante a noite, coisa que faço religiosamente pelo menos duas vezes durante o sono do descanso noturno depois da vida comprida do dia. e então acordei, antes de qualquer apito do despertador, e fiz café, estou lavando roupa, separei o médico e o monstro para ler à noite, ouvi belchior, comi banana com cereais e vou me preparar, com banho e tudo, para ler em espanhol sobre a divisão do sujeito, texto traduzido do francês, de um psicanalista reverencioso que discorre com humor poético e densidade teórica sobre a contribuição da psicanálise para se pensar os laços sociais contemporâneos.
enquanto faço este diário, Lóri, minha gata, dorme na cadeira que se porta no meio da sala de estar. a cabeça pousando delicadamente sobre as patas-mãozinhas. os olhinhos parecendo vírgulas de um livro da clarice, o nariz rosinha-bebê e o rabinho peludo e cinza caído cadeira a fora como se fosse um tecido da roupa da rainha de roma. um jeito de sentir esperança.

2 de agosto de 2013

A esperança é a última que se suicida pois "nascer é muito comprido"


"Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido."
Reflexão nº 1, Murilo Mendes



Cenouras são saborosas. Cortadas obsessivamente em rodelas finas com o tom do azeite e três pitadas de sal tornam-se voluptuosas. Sobretudo com o chileno de uvas brancas Cosheca Tarapaca, ou qualquer coisinha que o substitua minimamente - um grande amor é capaz de serventia nesta composição -, torna-se sublime. Para ser excepcionalmente sublime, beber o caldinho alaranjado, altíssimo de sal, com a gordura sábia do azeite e com, ainda, o acréscimo urgente de um gole profundo do vinho que te falo é um caminho de satisfação que presentifico neste momento.
Preparação esta milimetricamente pensada com antecedência, num alvoroço de fazer mercado às 18h, para escrever. 
Caso o relógio não tivesse engolido ponteiro abaixo o além da meia-noite, eu estaria dentro do meu plano. Mas a poesia tem uma voz expulsa do dia, da noite e dos planos. Fica sempre entre os grandiosos eventos lógicos da natureza. Entre o bem, o mal e o ordinário. Fica entre a vida. E eu tenho um costume esperançoso e antigo de desejar caber na noite de modo que o acordar aconteça antes do apito da fábrica de tecidos ferir meus sonhos Rosas.
Com isto, com esse hábito cruelmente cidadão, acabo protelando a poesia. Mais ou menos protelar. Melhor dizer: vou distribuindo a poesia com zero uniformidade ao longo dos afazeres cotidianos e quase não sobra nada. Digo, quase não sobra nada em mim, pelo menos nada que suficientemente me alimente. Fico sem garantia poética com essas poesiazinhas cadaverizadas sem conjuntura que suporte. Se nem o pão e o vinho compartilhados acabaram com as mazelas do mundo, imagine só se distribuir poesia em sustos metafóricos entra em economia self-solidária. Fico faminta e derrubo o estojo de maquiagem no chão, ainda bem que não foi a taça de Tarapaca, só de estar assim - frente a frente - do branco vândalo - porque não é pacífico - do Office Word. 

***
Um exemplo de distribuição poética avulsa:  hoje no metrô, atrasadíssima para ir à análise e já tendo antes desmarcado um compromisso por justamente não ter conseguido caber na noite de modo que eu pudesse ter acordado antes do apito, eu tive um verso-pensamento. Foi assim: 
--- "a esperança é a última que se suicida". 

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Afoita por uma rápida auto-descrição, porque duramente me pediram, me defini: inquieta, barroca e esperançada. Deixei "esperançada" por último para que enfatizassem nisto.

Não há nada mais parecido do que ser poesia do que ter esperança. Metaforizar o susto de ir sentindo toda uma gama de vida a cada vez é um ato esperançoso. Esperança engrandece o sólido, não com pouca importância, do ato existencial. 
Por exemplo, um ato existencial que cometi foi te olhar dormindo. Sem poesia, o ato existencial já está aí: te olhar dormindo. Mas, meu bem, você não estava só dormindo. Tua cabeça definia minha respiração apoiada sobre meu seio, e isto era a prova de que eu ali, ao te olhar dormir, cuidava a tranquilidade do teu esquecimento breve da vida pormenorizada rigorosamente por capricho da contemporaneidade. Essa coisa do dinheiro canibal nos comprimir. E nisto, sonhava o sonho que te entupia o cérebro. Inventava também, na captura da cena pelo olhos, que o amor era aquilo: te olhar dormir sobre os meus peitos. Todavia, não tem soneto vital que suporte se sustentar nesta última invenção poética citada. Amor é mais e eu tive que ir embora.

Falando nisto, ofereço mais um exemplo. Outro dia, pensando em como a vida se atropela, me exigi ter tempo para desenvolver um texto de título (a poesia é perversa e pode vir em forma de título de um texto):
 
--- "te escrever para te caber em parágrafos que durem um pouco mais que a memória". 
Eu te repeti várias vezes que os investimentos libidinais pulam de galho em galho. Quando pulei no teu galho, tamanha intensidade leonina e peso de amar, quebrou-se o galho logo. Contudo, erroneamente convencida de que sou macaca velha, fiquei insistindo estar na altura máxima das árvores. Quis te escrever para te caber em parágrafos que durem mais que a memória para não esquecer quem foi você para mim: macaquinho de uma pata só, tamanho folclore no discurso. Macaquinho-saci. Você quase é só uma dor -  digo -  cor, de tanto que desaparece conforme a agenda de 2013 vai preenchendo suas páginas - uma a uma. 

Era cruel, para mim, e avassalador, te carregar tanto ao longo dos dias, como uma mamãe-canguru. Mas tão cruel é te perder pelos dias como se nunca tivesses feito parte deles ou mesmo, o que é ainda mais cruel, como se nunca tivesses feito a rima da minha esperança poética.
A verdade é que você foi o criminoso, o destruidor dos setes mares da minha poesia autêntica. Eu, rigorosamente pintando ser a macaca ateia e velha, e você me convertendo religiosamente em canguru-mãe. Não tem identidade poética que aguente este travestismo animal. Até pelo motivo em negrito de que, tantas vezes camaleoa, eu era uma bebê felina esgoelando por amor. Macaquinho-saci e pilantra, você bem merecia não caber em parágrafos antes do pouco tempo da memória terminar se não fosse a saudade que carrego da sua beleza. Eu tenho saudade de te olhar dormindo, mesmo depois de ter ido embora por me sentir acobertada no sentimento de que amor é mais. Mas: saudade de te olhar dormindo. Os nós dos teus fios de cabelos encaracolados. A costeleta comprida que antecipava o menino triste que era. Os cílios feito lãs em cachecóis infinitos. Um imponente nariz louco que me respirava inteira; disse você pela última vez - arrependido -:
--- "você era o perfume no ar".
A boca arquitetônica. O pescoço magro e comprido para combinar com os ossos todos em evidência. O mamilo ensolarado em pelos ralos. Umbigo misterioso e fundo como um poço oco.  ..........................................................  Pernas tortas, canela fina, pés lindos. Fim. ***
Mais uma poesia, que mosaica em prosa e em forma de lembrança cadaverizada, não alimenta a fome maior de ser amor. Esperançada já sou. Nasço sempre. 

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'O ar está tão carregado de espíritos que não sabemos como lhes escapar.'(Goethe in Fausto)

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