Conto originalmente escrito e publicado em 2007. Editado por mim mesma neste 2014.
Diários Noturnos
19 de outubro de 2014
Interlúdio de Mim e Eu
Conto originalmente escrito e publicado em 2007. Editado por mim mesma neste 2014.
2 de outubro de 2014
Um ser sem espécie semântica
enigmaticamente curiosa:
perde uma vida inteira
explicando o que
não tem explicação,
inventa palavra
para ser mal-entendido
e mal-entender,
dizer e desdizer,
e até explica a palavra
que ele mesmo criou
para significar
o que não se pode
exprimir por palavras:
i.ne.fá.vel
inefável
adjetivo
(do latim ineffabile)
Que não se pode
exprimir por palavras.
no dicionário,
o homem dedica-se
a explicar tudo
- até o que fica
entre o silêncio
de cada palavra -
para desviar a atenção
da definição de si mesmo.
se possa ter
uma faísca de luz
sobre o enigma
do ser do homem
na cadência
de versos poéticos,
o lugar da grandeza
da falta de sentido.
há a invenção
da explicação
fora do terno
da ciência.
Aqui eu te invento,
homem.
E te segredo o amor,
aquele outro indizível:
Você é um ser
indicionário,
sem espécie semântica,
que vai durar
na minha boca
enquanto
houver verso
para eu te virar
do avesso.
23 de abril de 2014
Três Emes Professorais & O Xis intransigente
17 de dezembro de 2013
A ESCRITA DE MIM
O pior plágio é o que se faz de si mesmo.” Clarice Lispector
De um lado,
os pés na lama
da noite.
Do outro,
as dez unhas
agarradas
ao sol de teu sorriso.
o meu nariz afundado
na tua barba macia.
Ali,
as minhas pernas
cobertas com a areia
de um oceano infernal.
digo a ti quando a visão m'escapa.
escandalosamente
abertos,
como se exibindo
as suas asas:
e nunca!
todavia,
em que o coração
de criança perversa,
E o corpo
um tecido engolido
pelo vento seco
da metrópole
que vem da janela,
Sou in-óbvia,
confessional,
confusa no fuso
das horas,
e escrevo o corpo
de um diário noturno
co'as letras.
11 de novembro de 2013
Amor remanescente na ponta da letra
5 de novembro de 2013
Nota
da enunciação:
começar a fazer
as pazes
com o passado,
esta criança
que não morre
nem depois da morte.
30 de outubro de 2013
De Sóis Noturnos
tinha um espelho.
Sou eu?
Neste,
eu estava
invertida.
Naquele,
eu estava
a me ver
vertiginosamente.
sem madrasta:
eu sol.
Toda estampada
de sóis noturnos.
espelho meu,
nem mais bela.
Só eu.
- Eu sou?
- Eu sol!
- Eu só.
10 de outubro de 2013
Emoção: moção para fora
eu me excito
nada da coisa do meio molhada
é uma palavra que segura
e interpela as raízes
dos meus cabelos que nascem na nuca
nada da coisa do meio molhada
eu
tombo
a
cabeça
: meus olhos em mar de ondinhas salgadas
é mais que erotismo em véu, minha amada palavra
é um virar-se a si mesma de água santificada
aquela sobre paixão amaciada em lágrima
10.10.2013 - 21:16
25 de setembro de 2013
uma não qualquer quarta-feira
2 de agosto de 2013
A esperança é a última que se suicida pois "nascer é muito comprido"
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido."
Reflexão nº 1, Murilo Mendes
Cenouras são saborosas. Cortadas obsessivamente em rodelas finas com o tom do azeite e três pitadas de sal tornam-se voluptuosas. Sobretudo com o chileno de uvas brancas Cosheca Tarapaca, ou qualquer coisinha que o substitua minimamente - um grande amor é capaz de serventia nesta composição -, torna-se sublime. Para ser excepcionalmente sublime, beber o caldinho alaranjado, altíssimo de sal, com a gordura sábia do azeite e com, ainda, o acréscimo urgente de um gole profundo do vinho que te falo é um caminho de satisfação que presentifico neste momento.
Caso o relógio não tivesse engolido ponteiro abaixo o além da meia-noite, eu estaria dentro do meu plano. Mas a poesia tem uma voz expulsa do dia, da noite e dos planos. Fica sempre entre os grandiosos eventos lógicos da natureza. Entre o bem, o mal e o ordinário. Fica entre a vida. E eu tenho um costume esperançoso e antigo de desejar caber na noite de modo que o acordar aconteça antes do apito da fábrica de tecidos ferir meus sonhos Rosas.
Com isto, com esse hábito cruelmente cidadão, acabo protelando a poesia. Mais ou menos protelar. Melhor dizer: vou distribuindo a poesia com zero uniformidade ao longo dos afazeres cotidianos e quase não sobra nada. Digo, quase não sobra nada em mim, pelo menos nada que suficientemente me alimente. Fico sem garantia poética com essas poesiazinhas cadaverizadas sem conjuntura que suporte. Se nem o pão e o vinho compartilhados acabaram com as mazelas do mundo, imagine só se distribuir poesia em sustos metafóricos entra em economia self-solidária. Fico faminta e derrubo o estojo de maquiagem no chão, ainda bem que não foi a taça de Tarapaca, só de estar assim - frente a frente - do branco vândalo - porque não é pacífico - do Office Word.
***
Um exemplo de distribuição poética avulsa: hoje no metrô, atrasadíssima para ir à análise e já tendo antes desmarcado um compromisso por justamente não ter conseguido caber na noite de modo que eu pudesse ter acordado antes do apito, eu tive um verso-pensamento. Foi assim: --- "a esperança é a última que se suicida".
***
Afoita por uma rápida auto-descrição, porque duramente me pediram, me defini: inquieta, barroca e esperançada. Deixei "esperançada" por último para que enfatizassem nisto.
Não há nada mais parecido do que ser poesia do que ter esperança. Metaforizar o susto de ir sentindo toda uma gama de vida a cada vez é um ato esperançoso. Esperança engrandece o sólido, não com pouca importância, do ato existencial.
Por exemplo, um ato existencial que cometi foi te olhar dormindo. Sem poesia, o ato existencial já está aí: te olhar dormindo. Mas, meu bem, você não estava só dormindo. Tua cabeça definia minha respiração apoiada sobre meu seio, e isto era a prova de que eu ali, ao te olhar dormir, cuidava a tranquilidade do teu esquecimento breve da vida pormenorizada rigorosamente por capricho da contemporaneidade. Essa coisa do dinheiro canibal nos comprimir. E nisto, sonhava o sonho que te entupia o cérebro. Inventava também, na captura da cena pelo olhos, que o amor era aquilo: te olhar dormir sobre os meus peitos. Todavia, não tem soneto vital que suporte se sustentar nesta última invenção poética citada. Amor é mais e eu tive que ir embora.
Falando nisto, ofereço mais um exemplo. Outro dia, pensando em como a vida se atropela, me exigi ter tempo para desenvolver um texto de título (a poesia é perversa e pode vir em forma de título de um texto):
--- "te escrever para te caber em parágrafos que durem um pouco mais que a memória".
Eu te repeti várias vezes que os investimentos libidinais pulam de galho em galho. Quando pulei no teu galho, tamanha intensidade leonina e peso de amar, quebrou-se o galho logo. Contudo, erroneamente convencida de que sou macaca velha, fiquei insistindo estar na altura máxima das árvores. Quis te escrever para te caber em parágrafos que durem mais que a memória para não esquecer quem foi você para mim: macaquinho de uma pata só, tamanho folclore no discurso. Macaquinho-saci. Você quase é só uma dor - digo - cor, de tanto que desaparece conforme a agenda de 2013 vai preenchendo suas páginas - uma a uma.
Era cruel, para mim, e avassalador, te carregar tanto ao longo dos dias, como uma mamãe-canguru. Mas tão cruel é te perder pelos dias como se nunca tivesses feito parte deles ou mesmo, o que é ainda mais cruel, como se nunca tivesses feito a rima da minha esperança poética.
A verdade é que você foi o criminoso, o destruidor dos setes mares da minha poesia autêntica. Eu, rigorosamente pintando ser a macaca ateia e velha, e você me convertendo religiosamente em canguru-mãe. Não tem identidade poética que aguente este travestismo animal. Até pelo motivo em negrito de que, tantas vezes camaleoa, eu era uma bebê felina esgoelando por amor. Macaquinho-saci e pilantra, você bem merecia não caber em parágrafos antes do pouco tempo da memória terminar se não fosse a saudade que carrego da sua beleza. Eu tenho saudade de te olhar dormindo, mesmo depois de ter ido embora por me sentir acobertada no sentimento de que amor é mais. Mas: saudade de te olhar dormindo. Os nós dos teus fios de cabelos encaracolados. A costeleta comprida que antecipava o menino triste que era. Os cílios feito lãs em cachecóis infinitos. Um imponente nariz louco que me respirava inteira; disse você pela última vez - arrependido -:
--- "você era o perfume no ar".
A boca arquitetônica. O pescoço magro e comprido para combinar com os ossos todos em evidência. O mamilo ensolarado em pelos ralos. Umbigo misterioso e fundo como um poço oco. .......................................................... Pernas tortas, canela fina, pés lindos. Fim. ***
Mais uma poesia, que mosaica em prosa e em forma de lembrança cadaverizada, não alimenta a fome maior de ser amor. Esperançada já sou. Nasço sempre.
20 de dezembro de 2011
De A a Z
3 de setembro de 2011
Asterisco histérico
Dicionário Imaginário (acting out)
Quero fazer um exercício mental. Por correr o risco de todo o processo cair labirinticamente no poço do limbo, pus o pensamento em coleira. Afinal, palavra escrita é o que me incrimina. Sejamos amorais por lógica literária. Cometer o crime, por via de regra sublimatória, é o salvamento heróico em carne. Corda no pescoço, batalha-naval, inquisição, apedrejamento, asas de bigorna ou suicídio. Eu preciso de um resultado. Me engajar neste registro me salva do eu pelo ato de materializar o que antes se assemelhava a uma gelatina cagada ou bílis regurgitada. Me propus a seguinte tarefa: significar a palavra des.con.fi.ar sem atrever a curiosidade em qualquer outro dicionário que não seja este que carrego subjetivamente em profundeza sanguínea. Imaginei um cavalo negro num galope escandaloso. Todos os seus músculos de ferro delineados sob a túnica de pêlos que reluzem a velocidade na medida em que o sol fisga o seu desbravamento corajoso. Ui. A esperança cravou os dentes na minha elaboração teórica. A cena do cavalo negro é um contra-argumento pois veste em símbolo o que seria con.fi.ar. Des.con.fi.ar seria a violência humana de interferir nesta liberdade animalesca com esporas metálicas & chicote encouraçado. Desconfiar é limitar a entrega. É um abraço de mãos amputadas. Um abraço com olhos em direção transversal por cima do ombro alheio ao invés de contemplarem a escuridão do corredor da retina. Desconfiar é estar nu com um canivete enfiado no cu. É engatinhar sorrateiramente vestindo sapatos de salto alto.
_________
A Azeitona (passagem ao ato)
Sabes o motivo de uma azeitona ter caroço, lobo mau? É para travar o caminho interno do teu pescoço te fazendo desengasgar as vogais da frase que a tua desconfiança engoliu:
_ _ t_ _m_.
T. M. Teoria (da) morte. Tesouro malevolente. Travessia melindrosa. Trauma (de) mulher.
Desconfiar atrofia o amor, Lobo Mau. Estenda-me tuas mãos. Aceita esta azeitona.*
-- Eu te amo, desengasgou o Lobo. E galoparam o amor.
*Azeite este aceitamento.
19 de março de 2011
Incêndio
Dedilho o vestido do calcanhar, passando pelos joelhos arranhados de - oh senhor! - tanta queda, prejuízo & deslize, tocando c’os dedos as minhas coxas, unindo todo o tecido na palma da vagina, até envolver, por fim, o desequilíbrio da cintura. Queimo, ao franzir a testa em piedade à coragem, o cigarro no umbigo. Defloro os lábios num gozo torpe para rasgar a minha individualidade exagerada.
Te repito que procures por mim somente se, como uma febre num doente terminal, supores a tua cura na minha saliva de gelo. Do contrário, nega quaisquer que sejam as vírgulas que, como recém-nascidos, chorarem a minha prosa para alimentar a tua mentira tão argumentada. Não consigo alcançar em imaginação o momento em que deixará de ser o advogado do diabo. Vendi a minh’alma sem ao menos perceber a negociação. Doei meu sêmen de mulher na ingenuidade tosca de fantasiar o útero do amor em ti. Tu és um vento pervertido que assopra os vãos de pernas femininas. Eu sou a queima da feminilidade. Eu sou o incêndio, a fumaça, as cinzas. Atenta para o fato de que há em mim a concatenação de fenômenos, há em mim um clímax. Em ti, coisa de asas, não há começo, não há meio, não há fim. Tu és morno. Para de assoprar e me escuta, qu’eu vou te revelar: Para de destelhar e me contempla, qu’eu vou te contar: Para de confundir as marés e me fisga, qu’eu vou te declarar: Para de assoviar e me repara, qu’eu vou te escancarar:
Todo romance clássico é conduzido por uma linearidade de capítulos. Todo quadro de museu foi antes pincel, tinta e movimento de mãos. Toda criança foi orgasmo, trinta & tantas semanas in ventre e choro.
Tu precisas fincar teus pés, oh vento indomável. (os vestígios da tua dança são os meus olhos empoeirados) Tu necessitas estancar p’eu te tocar. (a tua existência aérea amputa os meus pulmões) Tu deves sofrer a alquimia da humanidade e então sangrar pr’eu te lamber. (teus assovios silenciam o corredor da minha língua) Tu precisas te transformar em troço sólido para que eu nutra o oco do estômago. (tua ousadia, tua efemeridade, tua imunidade guardam em cárcere o meu romantismo) Te grito! Sejas carne pr’eu te nomear:
-- Meu Homem.
24 de setembro de 2010
11 de maio de 2010
(Sem aviso, a porta principal se abrira.)
4 de maio de 2010
Solilóquio com ruídos entreolhados
.
.
.
Ele boceja com demora.
(Durante o dia, qual dos pensamentos espirais mais se repete? Tu preferes manhãs nubladas, de sol, de frio & vento, de sol & pingos? Ou as não-manhãs? Andar no asfalto que sobra da fileira dos carros, na calçada da direita ou esquerda das ruas ou no equilíbrio dos paralelepípedos? Tu contas as janelas abertas ou o número das casas & edifícios? Confias no semáforo ou segues o fluxo dos pedestres? Costumas cambalear em frente às vitrines de sebos ou em frente aos balcões de botequim? Ou permanece desistente no ponto equidistante entre ambos, respirando cigarros ao conferir a indecisão? O que te faz eriçar os pêlos? Medo de amar ou pavor de ser surpreendido? Na cabeceira, poesia ou prosa? Água do chuveiro com Bitous ou Rolim Estones? No bolso do jeans carregas isqueiro ou fósforos? Desconfias dos sorrisos ou das lágrimas? Preferes a decisão a partir d'uma encruzilhada ou rumar instintivamente de impulso em impul...)
O sapato esquerdo d'Ele retarda o tempo num tango de agonia.
Ela engasga uma dor que vem do ventre:
--- Se o meu silêncio fosse sólido, cuidadosamente o encaixaria no vão das tuas mãos quando assim, unidas.
--- (...) - Ele desvencilha as amarras feitas c'os dedos & envolve grotescamente o copo de uísque co'a mão direita.
Ela foge. Embora ainda permanecesse sentada, ela estava fugindo.
3 de maio de 2010
P.R. & o amor por sua M.C.S.
Durante todo o percurso a pé, P.R. iludiu a sua ânsia pelos cigarros. Havia fumado todos os cinco maços para uso emergencial guardados no porta-luva do carro. P.R. acreditava fielmente que se não fossem os cigarros a morte não lhe teria escapado em tantos sufocos existenciais. Não era um daqueles superticiosos de bar, com rostos inchados & avermelhados, barriga de barril e com todas as epopéias vitais na ponta da língua; era verdade que tinha sim o rosto inchado & avermelhado e uma barriga de barril, contudo, por ser um homem de mente enciclopédica - podia se atrever a discorrer sobre qualquer que fosse o assunto com um poder de construção de pensamento impecável -, era também um homem sem epopéia vital na ponta da língua.
Mantinha o traseiro de quem lhe dava atenção por horas a fio quando recordava as datas e os datalhes dos marcos históricos ou quando recitava Cervantes. Fazia tudo isso movendo as mãos sem cigarros italianamente tamanho o entusiasmo que sentia por saber montar os pormenores da humanidade de cabo a rabo. Todavia, na presença física, na presença iminente ou mesmo na presença psicológica - feito alucinação ou apenas recordação & lembrança - de sua M.C.S., as mãos tremiam em desespero: como se chorassem a dimensão do cigarro para cobrir algum dos vãos entre os dedos, de modo que assim, com os cigarros, as mãos voltassem a atingir o equilíbrio necessário e o pensamento voltasse àquela razão impecável.
A coragem de P.R. surpreendeu a ele próprio. Já era muito o fato de ter decidido atravessar uma estrada que durava três horas e vinte e dois minutos se a 120km por cada sessenta minutos somente para ter qualquer coisa de sua M.C.S. Esse qualquer coisa de M.C.S. que o fez comer os cinco maços de cigarro durante os treze infinitos que couberam dentro do tempo da viagem de carro.
P.R. iludiu a sua ânsia pelos cigarros durante todo o percurso a pé até a casa de sua M.C.S. Sentia como se guerreando sem escudo com a Morte. Era um balançar desengonçado de mãos, um sem propósito de pernas, uma vertigem vinda da pressa sanguínea dentro de seu corpo que se sentiu Dom Quixote. Em voz alta, começou a recitar Cervantes. As suas mãos aos poucos foram ganhando a vivacidade da razão, movendo-se italianamente. Bradava expansivo, com uma forte entonação quando numa rima chegou Dulcinéia. Auto-sabotagem: P.R. era um Dom Quixote na mais solitária das solidões sem a presença dos seus cigarros Sancho-Panças.
Com a prudência enfraquecida, avançando a vida em desequilíbrios físico & psíquico e, inclusive, com a visão turva & a boca num deserto, P.R. esperava sua M.C.S. atender a campanhia. Mais trezes infinitos suportados impacientemente. Mas toda a duração dessa agonia universal desapareceram assim que o rosto de M.C.S. invadiu a paisagem da janela da frente. E numa altivez desconhecida, a garganta fez a frase:
--- M.C.S., minha Dulcinéia feita de amor, destrua todos os moinhos de vento para que cigarro nenhum se apague.
1 de maio de 2010
Homem Cinza
Amaldiçoou a escuridão do dia por não perceber que há tempos já era noite dentro do terno não escolhido. Como se fugindo do teto dos céus, avançou feito criança medrosa para dentro de casa. Embora não tenha simbolizado a velha angústia, o homem pôs-se a chorar assim que a porta novamente bateu violenta atrás de si. Caindo o corpo no piso da cozinha (virou tapete de chão), soluçou:
"Desisto ----- de ------
------------------ mim".
30 de abril de 2010
A vida cabe numa dose de cognac
Não me exagero ao dizer: na lixeira do quarto não cabem mais maços vazios. Por esse motivo impedi a tua entrada neste recinto. Ultimamente, isto aqui se assemelha a um hotel de centro de cidade. Embora a falta de impessoalidade. Volto se é para dormir ou me banhar. No momento em que toda a subjetividade se perde, cair em perdição em esquinas quaisquer é a tentação. Não me preocupo em trocar os lençóis ou limpar os cinzeiros. Ao invés disso, maldigo o estado destes metros quadrados com interpelações do tipo: "Hóspedes canalhas!". Como pausar a razão por vaidade à loucura. Quando embriagado costumo confessar que sou eu o estúpido inquilino de mim. Confissão esta que de algum modo me vangloria. Depois de Álvares de Campos, subi ao pódio. Todos os demais carregam a bandeira de semideuses. E, arre!, que não cruzem o meu caminho.
Mas, dando forma ao significante, acabo de me dar conta da minha falta de juízo. Devia ter sido cortês, apontando com delicadeza o corredor que te traria a este buraco. Adoraria te ver reprimir o arrepio da espinha perante o aposento desumano. Penso que não me demoraria no sadismo, te acalentando ao mentir: "Estou de mudança. Aporrinhei-me dos vizinhos, do porteiro que vive de me vigiar e de me atrapalhar a misantropia; a transação infernal do bairro me é também insuportável. Não tenho mais idade, afinal. A imobiliária já está tratando dos negócios. Com os francos da aposentadoria devo conseguir uma casa com pelo menos dois dormitórios." Depois, atentaria-me em notar a tua dificuldade de engolir a seco toda a farsa e, como se ensaiando uma solução instantânea, tosserias tímida para propôr: "O botequim da segunda esquina ainda vende o nosso Dreher?".
29 de abril de 2010
Demanda sem intento
Tencionei na pele uma leveza quando ao estender as cortinas já fazia um sol sem a tutela das minhas causas soníferas. Enquanto eu resolvia acontecer, o mundo já lamentava mais da metade da vida de um dia. E eu me sentia lucrando a liberdade de retardar a minha existência. O meu rebelde costume de pôr em vigor uma sobrevivência andrógina. Pois há sempre um desejo que folga a alma e aquele habitual desejo que tem a gênese da impossibilidade: esboço um grito e esvai-se uma canção, faço enchente de gozo no lençol e o líquido dos olhos ensopa os poros da face, sirvo delicadamente o copo de vinho a ti e termino por quebrá-lo justamente (& inescrupulosamente) sobre a tua genitália. Então, o substantivo androginia pelo caráter indefinido que o significado suscita e em que a libido se explica.
Escuta! Quem mergulha em oceano profundo quer invalidar os pulmões ou encorajar o corpo que circunscreve a alma? Não quero cair em misticismo. Longe de mim. A questão é que andam enfiando a razão onde não cabe. E a legislação humana ainda não considera isso crime. Pois é, é de desacreditar. Tantas unhas minhas quebradas por arranhar desesperada a terra vermelha, almejando o núcleo vulcânico e na-da. A solução é denominada Nenhuma para a Confusão de questões. Como combinam o oxigênio necessário em vicissitudes?
Agora me volto novamente a ti. Tua cabeça deitou morna sobre o meu seio por um durante gigante e tu não notaste que eu prendia esse infinito de vida no cubículo dos meus pulmões fumantes. Talvez o volume da vitrola estivesse mesmo alto, roubando-te toda a audição & outras sensibilidades. O que eu não acredito. É que, vejas bem, é extremamente complicado o fato de eu ter sacado que os dois corpos, o meu e o teu, que tomavam a dimensão da minha cama eram, na verdade, dois corpos que tomavam a dimensão de uma cama; sem subjetividade alguma. Por todos os acasos equivalentes em nosso modo de ser e de lidar com o que somos, a tua mão direita nem tentou encaixar-se à minha esquerda. Tu achas que eu possa ser descomedida? Revertendo a lei da física por um apelo cuidadoso? Ou pensas apenas que o romantismo ficou em outra linha do tempo? E que estou sendo trivial na exageração do amor? Não, não é sobre amor. É mais simples que isso. Por gentileza minha, atentar-me-ei em poupar teu intelecto. Quero dissertar sobre as implicações de um mesmo vento. Ao passo que em mim esse sopro natural destelhou cidades, em ti funcionou como uma brisa excitante. Será que tu já embebedaste uma dor notoriamente incurável? De quebrar tijolos e joelhos, de amanhecer sem reflexo no espelho?
Quem (sol) eu:
- Rebecca Loise
- 'O ar está tão carregado de espíritos que não sabemos como lhes escapar.'(Goethe in Fausto)
