Diários Noturnos

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23 de abril de 2014

Três Emes Professorais & O Xis intransigente


Deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre 
Caetano Veloso em Elegia

Mística
que é a proparoxítona da sensibilidade do
Mistério
que é a paroxítona do continente negro da
Mulher
que é o clímax do x da questão
Histérica
que é proparoxítona que não inicia com M


17 de dezembro de 2013

A ESCRITA DE MIM

“Estou com a impressão de que ando me imitando um pouco.
O pior plágio é o que se faz de si mesmo.” Clarice Lispector

De um lado,
os pés na lama
da noite.

Do outro,
as dez unhas
agarradas
ao sol de teu sorriso.


Aqui,
o meu nariz afundado
na tua barba macia.


Ali,
as minhas pernas
cobertas com a areia
de um oceano infernal.

Entre uma coisa e outra:
o corpo elástico de mulher
e um fiel coração de pressão.

- Eu te amo pra sempre!
- Fique comigo, baby!
digo a ti quando a visão m'escapa.

De olhos
escandalosamente
abertos,
os pulmões gritam,
como se exibindo
as suas asas
:
- A vida é impossível
e nunca!

A noite não cabe no dia,
assim como o óbvio contrário disso,
o tempo está em tudo,
todavia,
e me preenche de vazio.

Nas ocasiões
em que o coração
é uma gelatina em mãos
de criança perversa,

E o corpo 
um tecido engolido 
pelo vento seco 
da metrópole
que vem da janela,

Sou in-óbvia,
confessional,
confusa no fuso
das horas,
e escrevo o corpo
de um 
diário noturno
co'as letras.


11 de novembro de 2013

Amor remanescente na ponta da letra

Inspiro um cigarro,
sujo de café a língua,
ultrapasso teus olhos e finalizo,
sentindo o gozo da filosofia
sempre inacabada,
que - sim, meu amor -
toda a minha inspiração vital
habita o arcabouço misterioso
das reminiscências.

Contemplando o limite da minha pele,
confesso ainda mais:
o amor é possível somente
se me permito

1) ser o mapa do tesouro
da tua inteligência

2) ser a fruta carnívora
da tua fome existencial

3, 4, 5, 6, 7...) ser
a matemática ilógica que se reverbera
nos significantes do nosso simbolismo.




São Paulo, 10 de Maio de 2011.

5 de novembro de 2013

Nota

Uma dádiva 
da enunciação:
começar a fazer 
as pazes 
com o passado,
esta criança 
que não morre
nem depois da morte.





30 de outubro de 2013

De Sóis Noturnos


para Bárbara Lia


Atrás do espelho,
tinha um espelho.
Sou eu?

Neste,
eu estava
invertida.

Naquele,
eu estava
a me ver
vertiginosamente.

Branca de neve
sem madrasta:
eu sol.

Toda estampada
de sóis noturnos.

Nem quem,
espelho meu,
nem mais bela.
Só eu.

TRÊS TEMPOS
I
Inspirou:
- Eu sou?
II
Expelindo:
- Eu sol!
III
Morrerá:
- Eu só.

10 de outubro de 2013

Emoção: moção para fora

diante da palavra destrinçar
eu me excito
nada da coisa do meio molhada

é uma palavra que segura 
e interpela as raízes
dos meus cabelos que nascem na nuca
nada da coisa do meio molhada


eu
tombo

cabeça

: meus olhos em mar de ondinhas salgadas
é mais que erotismo em véu, minha amada palavra
é um virar-se a si mesma de água santificada
aquela sobre paixão amaciada em lágrima

10.10.2013 - 21:16

25 de setembro de 2013

uma não qualquer quarta-feira

ontem à noite eu vi um fantasma. era branco, voava e apareceu atrás da janela, com o cenário de um prédio do centro da cidade atrás de sua queda: foi caindo, mas voando, numa linha diagonal da direita para a esquerda.
"a queda, em si mesma, contém a ressurreição" (Rappoport, 18--).
nada mais óbvio do que ter visto um fantasma ontem à noite, depois de um dia de setembro de 2013 que foi de 2008 a 1989, passando depois por 1982 - com os olhos fixos, pingando de emoção, na poesia duma mulher que resolveu cair no túnel sem volta aos 30. a poesia poetiza independentemente sobre paixão. e é este o tema da minha vida.
cheguei a pensar que setembro deste ano veio como uma apunhaladinha injusta no ápice do cérebro. mas aí que fui surpreendida. alguma coisa tinha que acontecer. este mês me serviu como recaptura do tempo e do quanto ele custa. de susto em susto, vi um fantasma branco voando atrás da minha janela. um jeito de sentir esperança. dormi, depois disto, tão fundo que nem acordei para ir ao banheiro durante a noite, coisa que faço religiosamente pelo menos duas vezes durante o sono do descanso noturno depois da vida comprida do dia. e então acordei, antes de qualquer apito do despertador, e fiz café, estou lavando roupa, separei o médico e o monstro para ler à noite, ouvi belchior, comi banana com cereais e vou me preparar, com banho e tudo, para ler em espanhol sobre a divisão do sujeito, texto traduzido do francês, de um psicanalista reverencioso que discorre com humor poético e densidade teórica sobre a contribuição da psicanálise para se pensar os laços sociais contemporâneos.
enquanto faço este diário, Lóri, minha gata, dorme na cadeira que se porta no meio da sala de estar. a cabeça pousando delicadamente sobre as patas-mãozinhas. os olhinhos parecendo vírgulas de um livro da clarice, o nariz rosinha-bebê e o rabinho peludo e cinza caído cadeira a fora como se fosse um tecido da roupa da rainha de roma. um jeito de sentir esperança.

2 de agosto de 2013

A esperança é a última que se suicida pois "nascer é muito comprido"


"Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio

Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido."
Reflexão nº 1, Murilo Mendes



Cenouras são saborosas. Cortadas obsessivamente em rodelas finas com o tom do azeite e três pitadas de sal tornam-se voluptuosas. Sobretudo com o chileno de uvas brancas Cosheca Tarapaca, ou qualquer coisinha que o substitua minimamente - um grande amor é capaz de serventia nesta composição -, torna-se sublime. Para ser excepcionalmente sublime, beber o caldinho alaranjado, altíssimo de sal, com a gordura sábia do azeite e com, ainda, o acréscimo urgente de um gole profundo do vinho que te falo é um caminho de satisfação que presentifico neste momento.
Preparação esta milimetricamente pensada com antecedência, num alvoroço de fazer mercado às 18h, para escrever. 
Caso o relógio não tivesse engolido ponteiro abaixo o além da meia-noite, eu estaria dentro do meu plano. Mas a poesia tem uma voz expulsa do dia, da noite e dos planos. Fica sempre entre os grandiosos eventos lógicos da natureza. Entre o bem, o mal e o ordinário. Fica entre a vida. E eu tenho um costume esperançoso e antigo de desejar caber na noite de modo que o acordar aconteça antes do apito da fábrica de tecidos ferir meus sonhos Rosas.
Com isto, com esse hábito cruelmente cidadão, acabo protelando a poesia. Mais ou menos protelar. Melhor dizer: vou distribuindo a poesia com zero uniformidade ao longo dos afazeres cotidianos e quase não sobra nada. Digo, quase não sobra nada em mim, pelo menos nada que suficientemente me alimente. Fico sem garantia poética com essas poesiazinhas cadaverizadas sem conjuntura que suporte. Se nem o pão e o vinho compartilhados acabaram com as mazelas do mundo, imagine só se distribuir poesia em sustos metafóricos entra em economia self-solidária. Fico faminta e derrubo o estojo de maquiagem no chão, ainda bem que não foi a taça de Tarapaca, só de estar assim - frente a frente - do branco vândalo - porque não é pacífico - do Office Word. 

***
Um exemplo de distribuição poética avulsa:  hoje no metrô, atrasadíssima para ir à análise e já tendo antes desmarcado um compromisso por justamente não ter conseguido caber na noite de modo que eu pudesse ter acordado antes do apito, eu tive um verso-pensamento. Foi assim: 
--- "a esperança é a última que se suicida". 

***
Afoita por uma rápida auto-descrição, porque duramente me pediram, me defini: inquieta, barroca e esperançada. Deixei "esperançada" por último para que enfatizassem nisto.

Não há nada mais parecido do que ser poesia do que ter esperança. Metaforizar o susto de ir sentindo toda uma gama de vida a cada vez é um ato esperançoso. Esperança engrandece o sólido, não com pouca importância, do ato existencial. 
Por exemplo, um ato existencial que cometi foi te olhar dormindo. Sem poesia, o ato existencial já está aí: te olhar dormindo. Mas, meu bem, você não estava só dormindo. Tua cabeça definia minha respiração apoiada sobre meu seio, e isto era a prova de que eu ali, ao te olhar dormir, cuidava a tranquilidade do teu esquecimento breve da vida pormenorizada rigorosamente por capricho da contemporaneidade. Essa coisa do dinheiro canibal nos comprimir. E nisto, sonhava o sonho que te entupia o cérebro. Inventava também, na captura da cena pelo olhos, que o amor era aquilo: te olhar dormir sobre os meus peitos. Todavia, não tem soneto vital que suporte se sustentar nesta última invenção poética citada. Amor é mais e eu tive que ir embora.

Falando nisto, ofereço mais um exemplo. Outro dia, pensando em como a vida se atropela, me exigi ter tempo para desenvolver um texto de título (a poesia é perversa e pode vir em forma de título de um texto):
 
--- "te escrever para te caber em parágrafos que durem um pouco mais que a memória". 
Eu te repeti várias vezes que os investimentos libidinais pulam de galho em galho. Quando pulei no teu galho, tamanha intensidade leonina e peso de amar, quebrou-se o galho logo. Contudo, erroneamente convencida de que sou macaca velha, fiquei insistindo estar na altura máxima das árvores. Quis te escrever para te caber em parágrafos que durem mais que a memória para não esquecer quem foi você para mim: macaquinho de uma pata só, tamanho folclore no discurso. Macaquinho-saci. Você quase é só uma dor -  digo -  cor, de tanto que desaparece conforme a agenda de 2013 vai preenchendo suas páginas - uma a uma. 

Era cruel, para mim, e avassalador, te carregar tanto ao longo dos dias, como uma mamãe-canguru. Mas tão cruel é te perder pelos dias como se nunca tivesses feito parte deles ou mesmo, o que é ainda mais cruel, como se nunca tivesses feito a rima da minha esperança poética.
A verdade é que você foi o criminoso, o destruidor dos setes mares da minha poesia autêntica. Eu, rigorosamente pintando ser a macaca ateia e velha, e você me convertendo religiosamente em canguru-mãe. Não tem identidade poética que aguente este travestismo animal. Até pelo motivo em negrito de que, tantas vezes camaleoa, eu era uma bebê felina esgoelando por amor. Macaquinho-saci e pilantra, você bem merecia não caber em parágrafos antes do pouco tempo da memória terminar se não fosse a saudade que carrego da sua beleza. Eu tenho saudade de te olhar dormindo, mesmo depois de ter ido embora por me sentir acobertada no sentimento de que amor é mais. Mas: saudade de te olhar dormindo. Os nós dos teus fios de cabelos encaracolados. A costeleta comprida que antecipava o menino triste que era. Os cílios feito lãs em cachecóis infinitos. Um imponente nariz louco que me respirava inteira; disse você pela última vez - arrependido -:
--- "você era o perfume no ar".
A boca arquitetônica. O pescoço magro e comprido para combinar com os ossos todos em evidência. O mamilo ensolarado em pelos ralos. Umbigo misterioso e fundo como um poço oco.  ..........................................................  Pernas tortas, canela fina, pés lindos. Fim. ***
Mais uma poesia, que mosaica em prosa e em forma de lembrança cadaverizada, não alimenta a fome maior de ser amor. Esperançada já sou. Nasço sempre. 

20 de dezembro de 2011

De A a Z

A: - Obrigada. E desculpe-me. Novamente muito obrigada. (É a terceira vez que derrubo esta bolsa desde que saí do escritório. Deve ser esta tensão robótica nos ombros. Talvez a solução deva ser comprar outra bolsa, que tenha alças compridas para que eu possa transpassá-la sobre o corpo, equilibrando o peso no tronco; ou mesmo selecionar meticulosamente esses cadernos, parar de carregar livros de bolso que não são de bolso, comprar uma agenda menor, providenciar pastas com inúmeros compartimentos para distribuir as papeladas que ficariam divididas entre o escritório e o meu quarto; ou, ainda, a solução mais rápida deva ser pedir demissão com dispensa de aviso prévio... Mas, nossa!, que rapaz gentil. Me poupou o trabalho dos joelhos e dos ombr...)
Z: - Imagine, Senhora. Não há por que se desculpar ou agradecer. (...Meu Deus, que olhos! Será a deusa dos olhos? Tomara que o semáforo se demore. Tomara que ela não repare no semáforo. Tomara que ela não repare na minha fixação. Acho que vou olhar para frente, fingindo-me preocupado com a demora do sinal esverdeado. Ai! Algo acaba de quase perfurar a minha pupila esquerda, ai...) – Ai.
A: - O que foi? (Ele me chamou de senhora? Estou a uma distância imensurável de ser assim classificada. Preciso avisá-lo que o que se aplica, no meu caso, é senhorita. Será que é o peso da bolsa? Será que, por conta do peso excessivo da bolsa, ele deduziu que eu tenha livros dentro dela, experiência, sabedoria e cuecas para lavar? Oh não. Deve ser o anel. Este anel de pérola que só coube no dedo anelar da mão esquerda, a que é menos inchada – porque, afinal, sou destra e faço quase tudo com a mão direita, inclusive desentupir pias, fumar e me masturbar. Ele parece querer chorar. Como sou egoísta. Resolvo derrubar a bolsa justamente no momento em que um rapaz que chora andando pelas ruas passou por perto de mim. Não, ele não está chorando. Sou eu quem estava pensando em chorar antes da bolsa cair...)
Z: - Não deve ser nada. Meu olho só está coçando. Esse vento poluído petrificou o movimento da minha visão, me fazendo ver tudo anuviado. Ou deve ser um cílio inoportuno. Por favor, não se preocupe. É só uma irritação. Como você se chama? (Ai que infelicidade a minha, que acaso tolo. Situação mais desastrosa num primeiro encontro não há. Eu pensei em primeiro encontro? Será que ter me colocado a contemplá-la de modo tão cravado fez com que meus olhos se mantivessem abertos por mais tempo, deixando-os vulneráveis aos suspiros violentos do vento?)
A: - Venha cá. Deixe-me ver. Um colírio logo resolveria. Meu nome é... Oh! O semáforo finalmente abriu. Vamos, apresse o passo. Vamos correr logo para a farmácia, fica a duas quadras do outro lado da rua. (Acabo de dar as mãos a um estranho? E eu ainda nem desfiz a sua impressão que tanto me compromete, digo, que me define comprometida. E esse meu ato impulsivo, de pegá-lo na mão para levá-lo até a farmácia deve ter escandalizado meu lado materno exageradamente aflorado. Ora, ele mal sabe que por medo de ser mãe abortei duas vezes. Aliás, ele não sabe porra alguma sobre mim e, neste momento, aposto que quem nos vê pelas calçadas imagina um casal romântico e destrambelhado como nos filmes de Truffaut. E, nossa, ele bem tem uma fisionomia de Antoine Doinel.)
Z: - Senhora, senhora... Um dos cadarços do meu sapato desamarrou. Paremos por um breve momento, por gentileza. (Por gentileza? Como as palavras me escapam pela língua seca sem que o cérebro matute algo mais elaborado ou mesmo algo que caiba de modo devido nesta circunstância. Será que pareço descaradamente sem jeito? Um homem com um dos olhos vermelho, apoiando os glúteos no tornozelo a fim de amarrar o cadarço do sapato direito ao meio de uma calçada transbordando transeuntes numa velocidade absurda. Um homem com um dos olhos vermelho sendo guiado pela deusa dos olhos que agora, com essa minha visão esbranquiçada, ganha ainda mais um quê mitológico, um ar divino.)
A: - Oh, claro, claro. Não sei de onde inventei essa pressa. Acho que me embaracei toda na minha preocupação com teu olho, deve ser por isso. Um rapaz gentil também merece cortesia. E, além do mais, você com toda certeza sabe o caminho para a farmácia ou o que fazer com os teus olhos. Novamente, desculpe-me. E obrigada por socorrer a minha desatenção. (Estou tão de repente afobada que me esqueci de dizer como me chamo para o rapaz. Assim, visualizando-o de cima, vendo-o todo cuidadoso com seu sapato, posicionado tão próximo a minha perna esquerda, chego a sentir uma intimidade instantânea. Chego a pensar que o conheço tanto a ponto de ele ser capaz até de desvendar os títulos dos tantos livros que carrego nesta bolsa. Oh Senhor, quanta doação feminina por um olho masculino. Oh Senhor, preciso com urgência lhe dizer o meu nome e que lhe contar que não, senhora eu não sou.)
Z: - Pronto. E, que coisa surpreendente... acho que o que me doeu os olhos foi-se embora. Bastaram várias piscadas seguidas e o sol da visão voltou com os seus contornos e delineações. E agora, com a visão recuperada, reparo que os teus olhos estão absortos. Senhora? ...Senhora? (Estou começando a achar que foram os olhos dela nos meus que me fizeram avermelhar o branco dos olhos e da face. Nesta hipnose, os sapatos quiseram me tropeçar, quiseram a minha queda de boca literal.)
A: - Não! Por gentileza, senhora não. Absortos... Ah, sim, meus olhos se perderam no tempo dos semáforos. Agora que já não temos a pressa, também não temos o que fazer além do que estamos fazendo agora: posicionados um em frente ao outro. (Sinto que minha bolsa cairá ombro a fora pela quarta vez...)

3 de setembro de 2011

Asterisco histérico

Dicionário Imaginário (acting out)

Quero fazer um exercício mental. Por correr o risco de todo o processo cair labirinticamente no poço do limbo, pus o pensamento em coleira. Afinal, palavra escrita é o que me incrimina. Sejamos amorais por lógica literária. Cometer o crime, por via de regra sublimatória, é o salvamento heróico em carne. Corda no pescoço, batalha-naval, inquisição, apedrejamento, asas de bigorna ou suicídio. Eu preciso de um resultado. Me engajar neste registro me salva do eu pelo ato de materializar o que antes se assemelhava a uma gelatina cagada ou bílis regurgitada. Me propus a seguinte tarefa: significar a palavra des.con.fi.ar sem atrever a curiosidade em qualquer outro dicionário que não seja este que carrego subjetivamente em profundeza sanguínea. Imaginei um cavalo negro num galope escandaloso. Todos os seus músculos de ferro delineados sob a túnica de pêlos que reluzem a velocidade na medida em que o sol fisga o seu desbravamento corajoso. Ui. A esperança cravou os dentes na minha elaboração teórica. A cena do cavalo negro é um contra-argumento pois veste em símbolo o que seria con.fi.ar. Des.con.fi.ar seria a violência humana de interferir nesta liberdade animalesca com esporas metálicas & chicote encouraçado. Desconfiar é limitar a entrega. É um abraço de mãos amputadas. Um abraço com olhos em direção transversal por cima do ombro alheio ao invés de contemplarem a escuridão do corredor da retina. Desconfiar é estar nu com um canivete enfiado no cu. É engatinhar sorrateiramente vestindo sapatos de salto alto.

_________

A Azeitona (passagem ao ato)

Sabes o motivo de uma azeitona ter caroço, lobo mau? É para travar o caminho interno do teu pescoço te fazendo desengasgar as vogais da frase que a tua desconfiança engoliu:

_ _ t_ _m_.

T. M. Teoria (da) morte. Tesouro malevolente. Travessia melindrosa. Trauma (de) mulher.

Desconfiar atrofia o amor, Lobo Mau. Estenda-me tuas mãos. Aceita esta azeitona.*

-- Eu te amo, desengasgou o Lobo. E galoparam o amor.

*Azeite este aceitamento.

19 de março de 2011

Incêndio

Dedilho o vestido do calcanhar, passando pelos joelhos arranhados de - oh senhor! - tanta queda, prejuízo & deslize, tocando c’os dedos as minhas coxas, unindo todo o tecido na palma da vagina, até envolver, por fim, o desequilíbrio da cintura. Queimo, ao franzir a testa em piedade à coragem, o cigarro no umbigo. Defloro os lábios num gozo torpe para rasgar a minha individualidade exagerada.

Te repito que procures por mim somente se, como uma febre num doente terminal, supores a tua cura na minha saliva de gelo. Do contrário, nega quaisquer que sejam as vírgulas que, como recém-nascidos, chorarem a minha prosa para alimentar a tua mentira tão argumentada. Não consigo alcançar em imaginação o momento em que deixará de ser o advogado do diabo. Vendi a minh’alma sem ao menos perceber a negociação. Doei meu sêmen de mulher na ingenuidade tosca de fantasiar o útero do amor em ti. Tu és um vento pervertido que assopra os vãos de pernas femininas. Eu sou a queima da feminilidade. Eu sou o incêndio, a fumaça, as cinzas. Atenta para o fato de que há em mim a concatenação de fenômenos, há em mim um clímax. Em ti, coisa de asas, não há começo, não há meio, não há fim. Tu és morno. Para de assoprar e me escuta, qu’eu vou te revelar: Para de destelhar e me contempla, qu’eu vou te contar: Para de confundir as marés e me fisga, qu’eu vou te declarar: Para de assoviar e me repara, qu’eu vou te escancarar:

Todo romance clássico é conduzido por uma linearidade de capítulos. Todo quadro de museu foi antes pincel, tinta e movimento de mãos. Toda criança foi orgasmo, trinta & tantas semanas in ventre e choro.

Tu precisas fincar teus pés, oh vento indomável. (os vestígios da tua dança são os meus olhos empoeirados) Tu necessitas estancar p’eu te tocar. (a tua existência aérea amputa os meus pulmões) Tu deves sofrer a alquimia da humanidade e então sangrar pr’eu te lamber. (teus assovios silenciam o corredor da minha língua) Tu precisas te transformar em troço sólido para que eu nutra o oco do estômago. (tua ousadia, tua efemeridade, tua imunidade guardam em cárcere o meu romantismo) Te grito! Sejas carne pr’eu te nomear:

-- Meu Homem.

24 de setembro de 2010

Quanta Noite Numa Só Lua


Ultrassonografia do Rorschach ou Self-Portrait

11 de maio de 2010

(Sem aviso, a porta principal se abrira.)

Não. Nunca! Tu cometeste a pior das tragédias quando se pôs a umedecer os olhos. Não é certo reagir dessa maneira. Tu não me convences com o mutismo afogado em amargura de lágrimas. Se cerro os olhos, a cena parece tão seca que sinto o sangue petrificar. E este deserto me dói do avesso: nem o pesar por ti sou capaz de carregar no fardo dos sentires. Por gentileza, fuja à ideia de que estou sendo cruel e para de me olhar assim. Se quisesse penetrar essa minh'alma diabólica, devia ter perdido um tempo considerável ponderando a sanidade antes de sumir de mim. Não suporto essa tua lida com a tristeza, Mulher. Aceita de bandeja esta verdade: tu não se importas com a tua própria angústia. Imagina! Desalinhaste a ampulheta da existência! Resolveste a perdição de pensão em pensão, tanto vinhos mesquinhos meteste nessa tua garganta, esqueceste teu corpo em outros corpos gratuitamente & agora choras. E agora choras toda a chuva que não soube desfrutar. Onde é que mora a tua culpa? Em qual esquina da tua veia bordaste a morada digna do teu eu? Se eu peço que te expliques, derramas lágrimas. Para confessar o amor indiscreto, derramas lágrimas. Comprarei a ti um dicionário. Não entendas como uma graça, um presente; será uma condolência. Então estudarás verbete por verbete para ver se nomeias os reis da tua humanidade. Pelo amor de um Deus, chega de amassar a tua cara, para de franzir os músculos da face. Mulher, o rímel tingiu de carbono a tua pele de neve. E agora imagino que é teu sangue negro brotando dos olhos como se o teu pranto não obedecesse à tua necessidade de demonstrar a tristeza, esgotando-se. E o que eu havia mencionado se confirma na minha alucinação: tu não se importas com a tua própria angústia. Ei! Por que não entras de vez ao invés de ficar aí parada? Venha, vamos fechar a porta. Não quero que vizinho algum seja espectador; afinal, isso aqui está longe de ser um espetáculo. Vês? Prezo por uma vida somente minha. Tu precisas entender que pertencer a si próprio resulta naquela liberdade em carne viva que tanto te digo. Mulher, mulher... que ventre te guardou. Aliás, penso que tu ainda não nasceste. Venha, apoias o teu braço no meu pescoço, soltas teu peso no meu corpo. Vou te banhar. Te lavar a superfície tentando amolecer a casca podre que enferrujou a tua alma.

4 de maio de 2010

Solilóquio com ruídos entreolhados

Ela o assalta co'as retinas.

.
.
.

Ele boceja com demora.

(Durante o dia, qual dos pensamentos espirais mais se repete? Tu preferes manhãs nubladas, de sol, de frio & vento, de sol & pingos? Ou as não-manhãs? Andar no asfalto que sobra da fileira dos carros, na calçada da direita ou esquerda das ruas ou no equilíbrio dos paralelepípedos? Tu contas as janelas abertas ou o número das casas & edifícios? Confias no semáforo ou segues o fluxo dos pedestres? Costumas cambalear em frente às vitrines de sebos ou em frente aos balcões de botequim? Ou permanece desistente no ponto equidistante entre ambos, respirando cigarros ao conferir a indecisão? O que te faz eriçar os pêlos? Medo de amar ou pavor de ser surpreendido? Na cabeceira, poesia ou prosa? Água do chuveiro com Bitous ou Rolim Estones? No bolso do jeans carregas isqueiro ou fósforos? Desconfias dos sorrisos ou das lágrimas? Preferes a decisão a partir d'uma encruzilhada ou rumar instintivamente de impulso em impul...)

O sapato esquerdo d'Ele retarda o tempo num tango de agonia.

Ela engasga uma dor que vem do ventre:

--- Se o meu silêncio fosse sólido, cuidadosamente o encaixaria no vão das tuas mãos quando assim, unidas.

--- (...) - Ele desvencilha as amarras feitas c'os dedos & envolve grotescamente o copo de uísque co'a mão direita.

Ela foge. Embora ainda permanecesse sentada, ela estava fugindo.

3 de maio de 2010

P.R. & o amor por sua M.C.S.


Durante todo o percurso a pé, P.R. iludiu a sua ânsia pelos cigarros. Havia fumado todos os cinco maços para uso emergencial guardados no porta-luva do carro. P.R. acreditava fielmente que se não fossem os cigarros a morte não lhe teria escapado em tantos sufocos existenciais. Não era um daqueles superticiosos de bar, com rostos inchados & avermelhados, barriga de barril e com todas as epopéias vitais na ponta da língua; era verdade que tinha sim o rosto inchado & avermelhado e uma barriga de barril, contudo, por ser um homem de mente enciclopédica - podia se atrever a discorrer sobre qualquer que fosse o assunto com um poder de construção de pensamento impecável -, era também um homem sem epopéia vital na ponta da língua.

Mantinha o traseiro de quem lhe dava atenção por horas a fio quando recordava as datas e os datalhes dos marcos históricos ou quando recitava Cervantes. Fazia tudo isso movendo as mãos sem cigarros italianamente tamanho o entusiasmo que sentia por saber montar os pormenores da humanidade de cabo a rabo. Todavia, na presença física, na presença iminente ou mesmo na presença psicológica - feito alucinação ou apenas recordação & lembrança - de sua M.C.S., as mãos tremiam em desespero: como se chorassem a dimensão do cigarro para cobrir algum dos vãos entre os dedos, de modo que assim, com os cigarros, as mãos voltassem a atingir o equilíbrio necessário e o pensamento voltasse àquela razão impecável.

A coragem de P.R. surpreendeu a ele próprio. Já era muito o fato de ter decidido atravessar uma estrada que durava três horas e vinte e dois minutos se a 120km por cada sessenta minutos somente para ter qualquer coisa de sua M.C.S. Esse qualquer coisa de M.C.S. que o fez comer os cinco maços de cigarro durante os treze infinitos que couberam dentro do tempo da viagem de carro.

P.R. iludiu a sua ânsia pelos cigarros durante todo o percurso a pé até a casa de sua M.C.S. Sentia como se guerreando sem escudo com a Morte. Era um balançar desengonçado de mãos, um sem propósito de pernas, uma vertigem vinda da pressa sanguínea dentro de seu corpo que se sentiu Dom Quixote. Em voz alta, começou a recitar Cervantes. As suas mãos aos poucos foram ganhando a vivacidade da razão, movendo-se italianamente. Bradava expansivo, com uma forte entonação quando numa rima chegou Dulcinéia. Auto-sabotagem: P.R. era um Dom Quixote na mais solitária das solidões sem a presença dos seus cigarros Sancho-Panças.

Com a prudência enfraquecida, avançando a vida em desequilíbrios físico & psíquico e, inclusive, com a visão turva & a boca num deserto, P.R. esperava sua M.C.S. atender a campanhia. Mais trezes infinitos suportados impacientemente. Mas toda a duração dessa agonia universal desapareceram assim que o rosto de M.C.S. invadiu a paisagem da janela da frente. E numa altivez desconhecida, a garganta fez a frase:

--- M.C.S., minha Dulcinéia feita de amor, destrua todos os moinhos de vento para que cigarro nenhum se apague.


1 de maio de 2010

Homem Cinza

Arrancou o cabide de modo drástico. Notando não ser aquele o terno adequado para caber no dia cinza outonal, rapidamente o lançou ao ar (virou tapete de chão). Dedilhou no armário uma camisa xadrez, outra listrada em azul marinho, a calça de linho - presente de algum parente inoportuno em alguma comemoração natalina na casa de sua madrasta -, um blazer mostarda de veludo, outro preto modelo caban. "É este", balbuciou para si. Enfiou com violência o braço esquerdo e pendurada a manga direita sobre as costas, seguiu eufórico em direção à cozinha. Chaleira, torneira, água até à boca, fósforo, gás, pronto. Voltou ao quarto e estancou em pose interrogatória: "O que vim fazer aqui?". O olhar a esmo alcançou longe o maço de cigarros em cima das páginas abertas de Faulkner e tratou logo de apanhá-lo. Procurou o bolso do blazer, encontrou a pele do abdômen. Apoiou o maço no móvel ao lado, despiu a manga esquerda, lançou o modelo caban ao ar (outro tapete de chão). Abriu qualquer gaveta, pegou qualquer malha. Então cobriu a pele com uma malha branca de gola esgarçada, abaixou-se e, na sua desatenção, a mão segurou o terno não escolhido. Vestiu-se sem se ater em ajeitar a gola atrás do pescoço. Estancou novamente. Para pôr em ordem o rebuliço de ideias, levou um bastonete aos lábios, tirou do bolso do jeans a caixa de fósforo e o acendeu. Guardou o resto dos cigarros junto aos fósforos na algibeira do terno não escolhido. Procurou no ar dos pulmões algum esclarecimento para todo aquele emanharado de sentimentos que o assaltava o âmago, demorando-se na respiração. Sentiu-se cansado. Teve vontade de chorar. "Não tenho tempo para isso, o cinza do dia se metamorfoseará em escuridão na próxima dança do relógio". Num súbito espasmo, correu até o fim do corredor. Noutra rapidez de instantes, sentiu o estrondo da porta fechando atrás de si.

Eis um homem avançando calmamente as ruas, casando perfeitamente a sua alma no breu de um fim de tarde. Ao contornar uma das esquinas, estancou outra vez: "Merda! Esqueci a chaleira no fogão. Preciso voltar".

Amaldiçoou a escuridão do dia por não perceber que há tempos já era noite dentro do terno não escolhido. Como se fugindo do teto dos céus, avançou feito criança medrosa para dentro de casa. Embora não tenha simbolizado a velha angústia, o homem pôs-se a chorar assim que a porta novamente bateu violenta atrás de si. Caindo o corpo no piso da cozinha (virou tapete de chão), soluçou:
"Desisto ----- de ------
------------------ mim".

30 de abril de 2010

A vida cabe numa dose de cognac

Tu descasas os lábios & não reconheço o passado em que um dia fomos. Ou esse estrangeirismo não passa de outra fuga ou a vontade uma desonesta de quinta. Não recordo se a filosofia "se o silêncio torna-se constrangedor, sei que é amor" veio do divórcio da tua boca que dissertava, argumentava, discorria, corria trôpega entre o vácuo de conhaque que estendia nossa distância. Contudo, ai. Contudo, ai como eu queria te calar a fala.

Não me exagero ao dizer: na lixeira do quarto não cabem mais maços vazios. Por esse motivo impedi a tua entrada neste recinto. Ultimamente, isto aqui se assemelha a um hotel de centro de cidade. Embora a falta de impessoalidade. Volto se é para dormir ou me banhar. No momento em que toda a subjetividade se perde, cair em perdição em esquinas quaisquer é a tentação. Não me preocupo em trocar os lençóis ou limpar os cinzeiros. Ao invés disso, maldigo o estado destes metros quadrados com interpelações do tipo: "Hóspedes canalhas!". Como pausar a razão por vaidade à loucura. Quando embriagado costumo confessar que sou eu o estúpido inquilino de mim. Confissão esta que de algum modo me vangloria. Depois de Álvares de Campos, subi ao pódio. Todos os demais carregam a bandeira de semideuses. E, arre!, que não cruzem o meu caminho.

Mas, dando forma ao significante, acabo de me dar conta da minha falta de juízo. Devia ter sido cortês, apontando com delicadeza o corredor que te traria a este buraco. Adoraria te ver reprimir o arrepio da espinha perante o aposento desumano. Penso que não me demoraria no sadismo, te acalentando ao mentir: "Estou de mudança. Aporrinhei-me dos vizinhos, do porteiro que vive de me vigiar e de me atrapalhar a misantropia; a transação infernal do bairro me é também insuportável. Não tenho mais idade, afinal. A imobiliária já está tratando dos negócios. Com os francos da aposentadoria devo conseguir uma casa com pelo menos dois dormitórios." Depois, atentaria-me em notar a tua dificuldade de engolir a seco toda a farsa e, como se ensaiando uma solução instantânea, tosserias tímida para propôr: "O botequim da segunda esquina ainda vende o nosso Dreher?".

29 de abril de 2010

Demanda sem intento

A começar pelos meus pés descalços para casar à minha nudez, pela noite que passei em claro na tentativa de esconder qualquer vestígio teu do meu quarto, pelas horas maquinadas em feitos gratuitos para não recordar a falta da tua respiração despreocupada, pela pressa dos passos para o sem rumo que é toda a minha vida, pelos piedosos cigarros chupados com fúria, pelos meus ruivos despenteados para não desenovelar o teu suor dos fios, pelo sax tenor do Coltrane cuja importância deve-se à incorporação de um silêncio que eu sei de cor, pela água do chuveiro despencando no dorso das minhas costas querendo ser a última tempestade e até pelo vermelho do batom que não descansei dos lábios. Tu percebes o preparo para que cada detalhe de mim não chorasse a tua ausência?
Tencionei na pele uma leveza quando ao estender as cortinas já fazia um sol sem a tutela das minhas causas soníferas. Enquanto eu resolvia acontecer, o mundo já lamentava mais da metade da vida de um dia. E eu me sentia lucrando a liberdade de retardar a minha existência. O meu rebelde costume de pôr em vigor uma sobrevivência andrógina. Pois há sempre um desejo que folga a alma e aquele habitual desejo que tem a gênese da impossibilidade: esboço um grito e esvai-se uma canção, faço enchente de gozo no lençol e o líquido dos olhos ensopa os poros da face, sirvo delicadamente o copo de vinho a ti e termino por quebrá-lo justamente (& inescrupulosamente) sobre a tua genitália. Então, o substantivo androginia pelo caráter indefinido que o significado suscita e em que a libido se explica.
Escuta! Quem mergulha em oceano profundo quer invalidar os pulmões ou encorajar o corpo que circunscreve a alma? Não quero cair em misticismo. Longe de mim. A questão é que andam enfiando a razão onde não cabe. E a legislação humana ainda não considera isso crime. Pois é, é de desacreditar. Tantas unhas minhas quebradas por arranhar desesperada a terra vermelha, almejando o núcleo vulcânico e na-da. A solução é denominada Nenhuma para a Confusão de questões. Como combinam o oxigênio necessário em vicissitudes?
Agora me volto novamente a ti. Tua cabeça deitou morna sobre o meu seio por um durante gigante e tu não notaste que eu prendia esse infinito de vida no cubículo dos meus pulmões fumantes. Talvez o volume da vitrola estivesse mesmo alto, roubando-te toda a audição & outras sensibilidades. O que eu não acredito. É que, vejas bem, é extremamente complicado o fato de eu ter sacado que os dois corpos, o meu e o teu, que tomavam a dimensão da minha cama eram, na verdade, dois corpos que tomavam a dimensão de uma cama; sem subjetividade alguma. Por todos os acasos equivalentes em nosso modo de ser e de lidar com o que somos, a tua mão direita nem tentou encaixar-se à minha esquerda. Tu achas que eu possa ser descomedida? Revertendo a lei da física por um apelo cuidadoso? Ou pensas apenas que o romantismo ficou em outra linha do tempo? E que estou sendo trivial na exageração do amor? Não, não é sobre amor. É mais simples que isso. Por gentileza minha, atentar-me-ei em poupar teu intelecto. Quero dissertar sobre as implicações de um mesmo vento. Ao passo que em mim esse sopro natural destelhou cidades, em ti funcionou como uma brisa excitante. Será que tu já embebedaste uma dor notoriamente incurável? De quebrar tijolos e joelhos, de amanhecer sem reflexo no espelho?

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'O ar está tão carregado de espíritos que não sabemos como lhes escapar.'(Goethe in Fausto)

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